A paisagem corria rapidamente pela janela do comboio quando a frase surgiu: ali, estão a ver bicarmonato de pontássio. Assim mesmo, não é erro de ortografia. E, perante a expressão inquisitiva dos interlocutores, repetiu: bicarmonato de pontássio.
Lá fora, o Tejo corria também, mais as verdes margens, o casario branco e a ponte metálica de Vila Franca, já lá para trás. Olhámos, mas não vimos. Sem descortinar o sentido da afirmação, pedi para explicar, e o Professor de Química revelou o significado daquela frase enigmática, conversa de químicos…
Um ou dois anos passados sobre o episódio, passei na ponte de Vila Franca de Xira, e verifiquei a veracidade dos factos. Nos pilaretes de pedra às entradas da ponte, um em cada margem, estavam mesmo duas efígies de bronze do antigo Presidente da República, marechal Carmona, e daí o “BI Carmona TO”. O pontássio não carece de explicação, penso.
A memória dessa viagem de comboio não termina no nome estranho, pois falta explicar o que faziam juntos o químico, o geólogo e o biólogo, três docentes da Universidade do Porto. Nesse ano já longínquo do início dos anos noventa, o amigo Serafim Riem, ambientalista cheio de garra e de vontade de mudar o mundo, tinha movido influências e conhecidos antigos para organizar aquela “embaixada” para ir à capital. A missão era difícil, nada mais nada menos do que tentar convencer o Secretário de Estado do Ambiente em funções, sobre a adoção de uma série de medidas urgentes para a conservação da Natureza. O princípio da autoridade (três académicos, dois catedráticos e eu, que era ainda Assistente) conjugado com a fundamentação científica, deveriam ter efeito garantido… Puro engano, tantas vezes demonstrado pelos responsáveis pelo Ambiente nos sucessivos governos. Macário Correia recebeu-nos bem, e concordou com a nossa argumentação, mas desiludiu-nos logo quando à tomada de decisões.
Com efeito, havia demasiados interessados envolvidos nas questões ambientais. Desde as autarquias, muitas vezes lideradas por trogloditas ou por ignorantes, a empresas predadoras e a proprietários de terras, sem escrúpulos ou sem ética, todos interessados em gastar rapidamente os fundos comunitários, disponibilizados sem critérios, eram muitas as entidades com expectativas de desenvolvimento a todo o custo, sem ponderar as consequências…
Já não me lembro dos assuntos abordados na reunião com o governante, mas nunca me esqueci do bicarmonato de pontássio.
NOTAS
Confesso que tive a tentação de escrever esta memória num formato diferente. Durante as duras horas de insónia em que amadureci as frases que ficaram acima, transformando imagens e sons distantes num texto coerente, informativo e consequente, diverti-me a imaginar como seria em “stand-up”… Seria mais ou menos como se segue.
Um químico, um geólogo e um biólogo entram num comboio. Passadas umas horas, diz o químico: bicarmonato de pontássio. O geólogo estranha: bicarmonato de pontássio? O biólogo secunda: bicarmonato de pontássio? O químico confirma: sim, bicarmonato de pontássio. Vai o geólogo e avança: conheço bicarbonato de potássio. E torna o biólogo: explique lá isso do bicarmonato de pontássio. E o químico explica: então, temos aquela ponte com dois retratos do Carmona, e isso dá… O geólogo e o biólogo, com sorriso amarelo, completam: bicarmonato de pontássio.
E por aí fora… Depois, pensei melhor e preferi um registo mais sóbrio, para não distrair muito o leitor da mensagem que escrevi no resto do texto.