Abri a cabeça com cuidado, usando a lâmina para cortar e levantar o osso como se fosse uma tampa, e localizei os pequenos cristais ensanguentados. Apontei-os com o bico afilado da pinça metálica, explicando como os detectar, determinando primeiro os pontos relevantes da arquitetura interna do crânio. Os cristais, esbranquiçados, não teriam mais de cinco milímetros de comprimento. A sua recolha não é tarefa fácil para novatos, e a demonstração que efectuei naquele momento, mais uma de tantas, constitui parte do treino dos estudantes interessados em fazer investigação em dinâmica de populações. Ah, estou a falar de otólitos1 de peixes.
E a que propósito trago esta memória? Eu explico. Ao longo da vida, procurei ser um elemento competente e útil na sociedade. A doença forçou-me a desistir, primeiro de muito, e, depois, de quase tudo dessa componente da vida. Não foi por deixar de andar, foi por não conseguir falar bem, argumentar, intervir no contexto e momento adequado. A mais importante função a sair afetada foi o contacto com alunos. Docente com causas, tentei sempre fazer aulas entusiasmantes, improvisando exemplos, compelindo alunos para o contraditório, e desmontando idéias enviesadas. Gradualmente, tornou-se inviável.
As restantes tarefas académicas foram progressivamente afetadas, e acabei por pedir aos colegas, da minha e das outras universidades, para não me convidarem a integrar júris de doutoramento e mestrado, nem para outras actividades.
Claro que, quando o discurso ficou comprometido, eu já tinha deixado a maioria dos trabalhos de campo e de laboratório, à medida que fui perdendo o uso das mãos, e depois das pernas, até cessar completamente essas componentes da vida universitária. Consequentemente, deixei de aceitar alunos de doutoramento e mestrado com temas dependentes de tarefas no laboratório ou no campo, e, durante algum tempo, aceitei estudantes para desenvolverem assuntos mais teóricos, e sempre em co-orientação.
Na componente de cidadania, foram também sucessivos os abandonos de outras facetas de uma vida atarefada e recompensadora. Tive que afastar-me da direcção executiva do Fapas, uma associação ambientalista que ajudei a construir, e à qual dediquei um esforço considerável ao longo de mais de duas décadas. Também as palestras em escolas ficaram para outros oradores, aos quais fui passando os convites que me iam chegando. Saí do Conselho Municipal de Ambiente do Porto, onde apresentei soluções e procurei melhorar as respostas da autarquia aos problemas relacionados com o ambiente. Pedi ao reitor da universidade que me substituísse no Conselho Estratégico do Parque Nacional da Peneda-Gerês, onde, durante alguns anos, procurei influenciar autarcas e gestores sobre a importância da conservação da natureza, e, uma vez mais, desmontar ideias não fundamentadas em conhecimentos científicos. No mesmo sentido, decidi não aceitar a nomeação para o Conselho Nacional Ambiente, quando da reitoria me perguntaram se aceitava a missão. Hoje, estou arrependido. A participação em algumas das suas reuniões teria sido gratificante, pela oportunidade de aprender com os outros membros do conselho, alguns dos quais tinha em elevada consideração. O facto é que não aceitei, pois encontrava-me já na fase de desvanecimento, de descomprometimento, por saber que não poderia cumprir por muito mais tempo.
Passei também a recusar entrevistas e reportagens, abandonando uma presença contínua nos jornais e televisões, como académico ou como ambientalista.
Sabendo que poderia ter feito mais, por tudo o que acima escrevi, e por mais ainda, e que aqui não cabe agora, sinto-me bem com a vida. Sei que ajudei a mudar o mundo. Para melhor.
NOTAS
1- Os peixes ósseos possuem três pares de otólitos em cada ouvido interno, e que são pequenas peças calcificadas importantes no equilíbrio, e que podem ser observadas para conhecer a idade e outros detalhes da vida de cada indivíduo.