Ensopado de galinha é distinto, e muito, de galinha ensopada. E a prova estava diante dos nossos olhos. O pobre galináceo, totalmente mergulhado na água fria do rio, ensopado, nunca mais daria para um ensopado. As duas jovens, pegando-lhe pelas pontas das asas com as pontas dos dedos, retiraram o afogado da água, e depositaram-no na margem, sem objetivo evidente ou definido. Enquanto a CF e a EA faziam a operação, eu registei o momento numa fotografia, a qual se veio a revelar muito escura.
Desse mesmo dia, recordo-me bem das grandes árvores que formavam uma cerrada galeria que cobria o rio, em marcado contraste com a serra quase careca que se erguia para lá da margem direita do rio. Subi uma centena de metros da pedregosa encosta e já gritavam de baixo: A professora está a chamar, temos que ir embora! E foi assim que terminou a visita ao Parque Nacional. Sem ter aprendido alguma coisa sobre as razões da importância daquela área protegida, sobre a sua geologia, flora e fauna, e sem ter visto qualquer uma das suas paisagens características.
No final daquela primeira visita, eu estava longe de imaginar que as impressões recolhidas estavam muito longe da realidade. Passaram alguns anos até começar a conhecer de perto o parque nacional, o seu património, as suas gentes, os seus problemas e a sua gestão.
A “visita de estudo”, organizada por quem nada entendia do assunto, limitou-se a uma interminável viagem por estradas antigas e a um par de hora na decadente Vila do Gerês, tempo suficiente para comer o farnel e caminhar um pouco pelo parque urbano “Tude de Sousa”, atravessado pelo rio Gerês e ajardinado pelos serviços florestais do Estado com arvoredo de vários continentes, incluindo as acácias, invasoras que constituem um dos principais problemas que assolam a mais importante área protegida do país.
Acredito que as professoras tivessem boa intenção, mas o tema de conservação da natureza era ainda novo na sociedade lusa, e o parque nacional tinha sido instituído há pouco tempo. O resultado da visita mal preparada, consequentemente, teve resultado educativo quase nulo. Totalmente o oposto do sucedido noutra visita à praia do Lavadores, efectuada um par de meses antes. Ainda hoje me lembro de interpretar as formações rochosas à vista, os gnaisses, os grandes pedaços de granito rosado, porfiróide, o cabedelo…
Por todas essas razões é que a memória mais marcante daquela ida ao Gerês se revelou, afinal, a galinha ensopada.