O planalto parecia rigorosamente dividido ao meio. As metades, ambas com árvores pequenas e ervas altas, estendiam-se sem relevo até perder de vista. A linha vermelha que separava a paisagem vinha do horizonte até nos encontrar, transformando-se gradualmente na estrada de terra batida por uma onde avançávamos rapidamente. A nossa passagem levantava uma nuvem de poeira, igualmente vermelha, que desaparecia lentamente com a brisa.
Primeiro uns pontinhos escuros, rapidamente as cubatas foram tomando a sua forma, enquanto nós íamos fazendo a aproximação. Estranhamente, ninguém à vista, a pequena povoação aparentava total abandono. Abrandámos. Foi então que nos demos conta da barreira de terra que atravessava a estrada. Não teria mais do que um palmo de altura, mas era novamente estranho. Depois, vimos o sinal. Espetado num montículo de terra seca, um pau meio retorcido ostentava um pedaço de papel preso com um cordel. O pai aproximou a viatura até parar, alinhando a minha janela com o inesperado e misterioso poste de recados. Algumas palavras estavam escritas, mas não era possível entender a mensagem, pois a folhinha rodopiava com o vento, e, por mais que eu esticasse o braço, não conseguia deitar-lhe a mão.
Exasperado, ou enervado, o pai abriu a porta do seu lado, deu a volta e, chegando-se ao sinal, arrancou bruscamente o papel do cordel que o prendia. Regressou à viatura, sentou-se, e leu para dentro. Soltou uma interjeição de desagrado e passou-me o misterioso recado. Finalmente com o papel na mão, li as letras que se alinhavam numa única frase: “o porco come mamão”.
Para quem está menos familiarizado com frutos tropicais, será bom esclarecer que o mamão é semelhante à papaia, mas maior, mais globoso, e de polpa mais amarela. São variedades de uma planta originária de zonas tropicais da América Central, Carica papaya, hoje cultivada em muitas áreas com clima semelhante.
Regressemos agora ao bilhete da beira da estrada. Afinal, não era nenhum aviso ou ameaça. No início dos anos 70 do século vinte, a zona do Bié, no centro de Angola, já alguns anos que estava isenta de confrontação armada entre as tropas portuguesas e as dos movimentos independentistas. Havia, contudo, eventos esporádicos de intimidação de ambas as partes, e, ainda, raros assaltos. Foi nesse contexto que foi interpretado o insólito avistamento da barreira, do sinal, e da aldeia vazia. Tanto mais que nunca nos tínhamos deparado com qualquer problema, em milhares de quilómetros percorridos em estradas tão afastadas dos centros da administração colonial como aquela.
O que significava a mensagem, para além da verdade que traduzia? Afinal, quem conhece os suínos, sabe que comem de tudo. Seria uma mensagem codificada para outros olhos? Seria uma simples afirmação pueril de quem tinha feito uma descoberta, e queria comunicá-la ao mundo? Seria um tratado de filosofia, veiculado por aquela frase, mais elaborada do que aparentava? Nunca saberei. Galgando a inócua barreira, seguimos viagem em direcção ao nosso destino.
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