FRAGMENTOS DO PLANETA

A improvisada prateleira, uma tábua tosca apoiada em dois tijolos, exibia a preciosa colecção. Recolhidos um pouco por todo o lado, os fragmentos do planeta exibiam cores, tamanhos e texturas  variadas, uns eram brilhantes e outros não.

As peças mais bonitas, as minhas preferidas, eram estruturas cristalinas, quase puras, algumas tão transparentes que pareciam feitas de ar cristalizado. Podemos também dizer, de modo menos poético, serem constituídas quase exclusivamente por dióxido de silício, também conhecido como sílica. Esta é encontrada na natureza como quartzo, os meus lindos cristais, em muitos grãos de areia, e na concha de vários organismos marinhos, ou nos picos das urtigas. Eu tinha cristais do tamanho de um punho, esbranquiçados, tinha outros menores, cinzentos, azulados, amarelados e rosados, e tinha aglomerações de pequeninos cristais, revestindo o interior de irregulares bolas de pedra, os geodos, completamente pardos e desinteressantes por fora.

Para além dos quartzos, tinha muitos outros pedacinhos  de planeta, incluindo alguns fósseis. As viagens de família por distintas zonas de Angola, do deserto de areia e cascalhos à savana de solos avermelhados e à floresta subtropical, das arribas costeiras aos depósitos de aluvião nas barrentas anharas herbáceas, das dunas estacionárias, roídas pelos ventos, às serras de estratos coloridos, ou com grandes monólitos  plutónicos, essas viagens levaram-me a contextos geológicos muito variados e foram as mais importantes fontes da coleção. Também as frequentes deslocações para pescar, em rios de perto e de longe, e as deambulações ciclistas pelos barrancos e pelos matos das cercanias de onde vivia, todas proporcionaram as oportunidades necessárias, as quais, aliadas ao olhar atento, permitiram a reunião das dezenas de pedras da minha exposição. 

Lembro-me vagamente das micas,  da clara e da escura,  e de xistos de cores diversas, vermelhos, castanhos ou amarelos, tal como os tons dos arenitos. Se os calcários eram desinteressantes e os cinzentos granitos fáceis de encontrar, outros eram muito difíceis de recolher na natureza, pelo menos nas zonas por onde andava. O escuro pedaço de basalto chegou-me pela mão de alguém, e o alvo e acetinado  mármore foi achado nos restos de uma obra.

Quanto aos fósseis, eram pedaços de amonites, ou algo semelhante, e moldes e conchas de bivalves, todos eles encontrados em arribas costeiras em desagregação.  Pouco importantes, é certo, mas alvos da minha admiração.

A identificação de cada uma das peças foi feita pela informação que a minha enciclopédia e os manuais escolares continham. Algumas delas ficaram sem nome, e todas ficaram lá.

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