NI NORUEGA

O barulho cavo e metálico, repetido interminavelmente, era uma tortura. E eu não sabia de onde provinha. Deitado num banco estreito da biblioteca, envolvido no saco-cama, dava voltas e mais voltas sem repousar. O som sem explicação não me deixava  dormir, e, a bem da verdade, a improvisada cama, oscilante e desconfortável,  também não ajudava. 

A primeira noite que passei no “NI Noruega” ficou como marca de sacrifício académico. Na manhã seguinte, procurei a origem do barulho. E descobri: vinha de uma pesada corrente de ferro, esticada no convés superior, e que rolava ao compasso da ondulação e percutia a parede da biblioteca. Era a corrente sobressalente da âncora.

Felizmente, dois dias depois, passaram-me para um acanhado beliche junto da cozinha e passei melhor a noite, apesar do complexo “cocktail de aromas”.  Os barulhos ficaram diferentes e menos intensos: panelas, pratos, copos, e o gerador. Para quem não está habituado, dormir a bordo não é fácil.

Será agora o momento para explicar a razão da minha presença naquele navio de investigação, daí o “NI” que antecede o nome, e “Noruega” em agradecimento ao país que o ofereceu ao nosso. A pedido do meu chefe, depois de muito insistir, a chefia do Instituto Nacional de Investigação das Pescas, hoje integrado no IPMA, deu-me autorização para participar num cruzeiro, a fim de recolher material biológico para o meu doutoramento.

Aquelas duas semanas foram intensas, e aprendi muito. Não só sobre as operações e funcionamento dos arrastões, das redes para plâncton e das sondas multiparamétricas, mas constatei também a dureza do trabalho e as dificuldades a bordo, e escutei curiosas histórias de marinheiros. E vi tantas espécies que não conhecia, por serem imediatamente devolvidas ao mar, rejeitadas na pesca comercial. Foi ainda uma boa oportunidade para observação, de muito perto, de aves pelágicas difíceis de observar a partir de terra. 

Além dessa vez, em 1990, voltei a embarcar no NI Noruega mais duas, a meu pedido, nos anos seguintes, e sem pagamento das refeições, ao contrário do que tinha sucedido na primeira participação. Não sucedeu assim por acaso, ou por simpatia, mas em reconhecimento pela minha ajuda eficaz nos trabalhos a bordo, o que dispensava a presença de um trabalhador do instituto, e a despesa com o respectivo subsídio de embarque. Deixo aqui um exemplo. Na segunda viagem, não havia ninguém do IPIMAR que soubesse tirar os otólitos1 da caixa-forte que é a cabeça do tamboril. Adivinham quem o fez? E capturaram-se muitos. 

Tenho registo fotográfico da participação naqueles e noutros cruzeiros de investigação, também efectuados em águas nacionais, mas sem pernoita a bordo: no NI Mestre Costeiro (Ipimar), no Pesquisa (privado), e no NI Tellina (Ipimar). Experiência igualmente importante foi a participação em cruzeiros de investigação de outros países, do lado de cá e de lá do Atlântico, a convite de colegas diversos.  Primeiro no enorme RV Tridens (RIVO-DLO, Holanda), depois no incrivelmente limpo RV Pelagia (NIOZ, Holanda), ambos cruzando as frias águas do Mar do Norte. Mais tarde, foi no tecnológicamente avançado F.G. Walton Smith (MRSMAS, EUA) ziguezagueando pelas águas quentes da Flórida e das Bahamas.

Em todas aquelas aventuras náuticas, umas mais confortáveis do que outras, aprendi metodologias e obtive conhecimentos úteis para o meu trabalho, tanto para as aulas como para a investigação. Valeu a pena.

NOTA

1- Os peixes ósseos possuem três pares de otólitos em cada ouvido interno, e que são pequenas peças calcificadas importantes no equilíbrio, e que podem ser observadas para conhecer a idade  e outros detalhes da vida  de cada indivíduo.

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