A PONTE ENTRANÇADA

Nunca tal coisa tinha visto, e não mais voltei a ver. A esburacada estrada de terra batida tinha chegado ao rio, e, para o atravessar, lá estava a ponte. Não era uma ponte como as outras que abundavam na região, feitas de troncos e tábuas grossas, ou então de cimento, as melhores. Não, aquela parecia de malha, um verdadeiro trabalho de artesãos, um entrançado de canas verdes, as mesmas que abundavam nas margens do curso de água. Parecia tão frágil, incapaz de cumprir a sua função.

Atravessar ou não atravessar? A questão não era despicienda, atendendo ao perigo evidente, cinco ou seis metros de teia fina a ligar as margens  de um afluente do rio que nos esperava adiante. Outro percurso seria muito demorado, e inviabilizaria o fim de semana de pesca, o nosso objetivo. A coloração verde da obra era indicação da sua construção recente. Teria sido testada? Aguentaria o peso da viatura? Questões pertinentes e sem resposta. 

Ao fim de alguns tempo de ponderação, decidimos avançar. O factor determinante na escolha foi o peso do pequeno jipe em que nos deslocávamos. O Suzuki Jimny era um 4×4 minúsculo, coberto de lona e com pouco mais de meia tonelada de tara. Dois bancos na frente, condutor e passageiro, e, atrás deles, só cabia o pneu sobressalente e um banquinho rebatível, para um pendura de joelhos encostados ao queixo, ou para bagagem. Como devem imaginar, passado algum tempo, aquele lugar era a definição acabada de desconforto. Adiante, pois esta memória é sobre a travessia e não sobre os atravessantes, nem sequer sobre o adolescente pendura, e relator deste episódio.

Tomada a decisão, seguiu-se a remoção de toda a carga, jogando pelo seguro. Não era ocasião para abusar da sorte. Depois de aligeirado, o jipe avançou devagar, até apoiar as duas rodas da frente na ponte orgânica, debaixo do olhar atento do condutor e dos dois passageiros, estes em terra firme. A estrutura aguentou. Verificada a segurança, prosseguiu-se  lentamente até apoiar todo o veículo, e, nesse momento, a ponte começou a vergar ao meio e a submergir devagar. Reagindo, o motorista acelerou e projectou a viatura para a outra margem. Obstáculo superado! E, para sempre, bem gravado nas minhas circunvoluções. 

Da pescaria no rio mais importante naquela região, o Luando, não ficou  registo relevante. Mesmo a jusante da espetacular catarata não houve peixe digno de nota. Os grandes ciprinídeos de arroba faltaram à chamada, e mandaram-nos só os pequenitos. 

As quedas do Luando. (fotografia Paulo Santos)

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