O muro não era alto, mas a sebe, essa sim. Feita de velhos cedros imbricados e podados com regularidade, escondia o edifício térreo que se estendia ao longo do grande pátio, escudo e pau de bandeira ao meio, por cima da porta. A sebe escondia também outra “construção”, mas no seu miolo. Ao longo dos anos, gerações consecutivas de pequenos utilizadores, de metro ou menos, tinham aberto um túnel a meia altura dos cedros, e que era muito usado nas brincadeiras nos intervalos das aulas na Escola Primária. A deslocação pelo interior do esconderijo fazia-se por cima de grossos troncos, mais ou menos horizontais, brancos de tão polidos pelo calçado.
Um dia, a meio de uma batalha qualquer, espreitando para o exterior por uma janela do “castelo”, um dos guerreiros avisou “vai passar uma quitandeira!”, e logo várias cabeças assomaram-se aos orifícios na sebe, como era habitual sempre que acontecia algo diferente na rua.
Para quem não conhece, a quitandeira é uma vendedora ambulante comum em Angola, sendo a quitanda o recipiente, normalmente feito de palha entrançada, onde transporta à cabeça as suas mercadorias. Azar dela, quando passou pela escola no momento errado. “São loengos!” disse outro. Não me lembro se já teria acontecido anteriormente, um de nós esticou o braço e tirou um. Enquanto andava, a insuspeita quitandeira viu-se aliviada de meia dezena dos deliciosos frutos. Não haveria consequências relevantes com o assalto, pois a quitanda estava cheia, mas, como muitas vezes acontece, um gesto simples pode complicar-se quando menos se espera, e assim sucedeu. Por descuido ou com dolo, nunca saberemos, uma mãozinha desequilibrou a quitanda e, no momento seguinte, estava tudo espalhado no chão. Frágeis, os frutos amassados e cobertos com a terra do chão, certamente perderam o valor, deitando a perder horas de trabalho no mato, escolhendo os mais maduros, prontos a comer.
Envergonhada, a macacada desceu dos ramos e se dispersou pelo pátio. A brincadeira tinha acabado, mal.
Para não terminar em tristeza, deixem-me falar dos loengos. São os frutos de uma árvore comum em vastas zonas de Angola e do Congo, Anisophyllea gossweileri. O nome latino refere uma característica das plantas do mesmo género taxonómico, as quais, apesar de se distribuírem por zonas tropicais muito afastadas umas das outras, todas produzem dois tipos de folhas (aniso significa desigual). Os frutos desta árvore, quando maduros, apresentam coloração roxa muito carregada, e tingem a língua durante algum tempo. Depois de comer um, é impossível negar o facto.
Eu comia-os com prazer, chupando o caroço até saber a nada, mas, bom, mesmo bom, era o doce feito com a sua polpa. A minha mãe fazia o melhor doce de loengo do mundo.
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