APERTEI-LHE A MÃO

Ao longo da vida, tive oportunidade de apertar a mão a um bom número de pessoas ilustres. À sua maneira, cada uma delas teve dimensão para além das fronteiras dos respectivos países. Pela sua ação e pensamento, que se traduziram em conhecimentos científicos ou em mudanças políticas,  causaram alterações na vida de muitos cidadãos, para melhor.  Não as considero como medalhas que mereci, pois não é esse o caso, mas sim o resultado de felizes acasos. Sem pensar muito, lembro-me bem de algumas dessas pessoas, todas elas já desaparecidas. Dos ainda vivos não falarei aqui.

Começo por Mário Soares. Controverso, não é aqui o momento de analisar a  sua vida, mas sim de reconhecer a sua importância. Ofereci-lhe um livro, o Guia das Aves editado pelo Fapas, o qual tinha ajudado a adaptar para Portugal, e recebi em troca o tal “bacalhau”. A cena passou-se numa das presidências abertas do então Chefe do Estado, e a minha presença no evento foi a convite da Associação Quercus, na visita oficial à loja desta associação, na ribeira do Porto. Recordo a mão sapuda e o aperto mole, talvez já fartinho de tanto cumprimento.

Outro personagem importante foi Luís Saldanha, biólogo, que fez do estudo e divulgação da oceanografia a paixão da sua vida. Apesar de não ter sido seu aluno, aprendi muito com as suas publicações sobre a fauna marinha do país. Tive a sorte de conversar com ele várias vezes, e até de ir a sua casa quando me deu boleia do Algarve para Lisboa, no final de um congresso qualquer. A conversa foi tão interessante que me esqueci da minha pasta no carro, quando me largou na Estação de Sta Apolónia. Recebi-a uns dias depois.

Mário Ruivo foi outro cientista português que teve relevância internacional. Exerceu funções técnicas e políticas, no governo, em organismos do Estado, em conselhos consultivos, incluindo em entidades como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Foi um defensor dos oceanos e promoveu boas práticas para evitar a sobreexploração dos recursos pesqueiros, tanto ao nível interno como global. Falei brevemente com ele, por ocasião de um encontro técnico, precisamente sobre pesca, e pareceu seco, incisivo, mas talvez cansado… 

Outro cientista que teve grande impacto mundial foi Ramón Margalef. Impulsionador de novas abordagens à teoria ecológica, sobretudo usando modelos matemáticos, foi autor de um admirável cartapácio onde muito aprendi. Os seus métodos acompanharam boa parte dos trabalhos profissionais que executei, assim como as minhas aulas. Também troquei palavras de circunstâncias com ele, quando o meu chefe o abordou num intervalo de lazer de um congresso, e eu aproveitei para cumprimentar o convidado de honra do evento. Era já velhote, mas o discurso era lúcido, oportuno.

Ainda mais idoso quando o vi, também num congresso, Ray Beverton passou por mim sem eu contar. Cumprimentei-o tão de surpresa que me ia enganando no seu nome. Entre muitas outras coisas, foi co-autor de um complexo livro (em 1957) com novos métodos para avaliação de biomassa de recursos em exploração. Na época em que a informática estava ausente, esses métodos, usando régua de cálculo, permitiram iniciar uma melhor gestão das capturas e a elaboração de metas de sustentabilidade baseadas em dados da biologia de cada espécie. Infelizmente, décadas depois, e mesmo com métodos melhores e ubiquidade de computadores, a exploração dos recursos continua sujeita à cupidez de muitas empresas que nada respeitam,  com a conivência dos governos.

De outros a quem apertei a mão, escreverei numa outra ocasião.

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