MATRIZ ORGÂNICA, ZEROS E UNS

Nestes textos, revelei vários episódios de uma infância vivida em Angola, nos anos já longínquos da década de 60 do século passado. Muitos mais estão ainda por sair da matriz orgânica e passarem a uma sucessão de zeros e uns nos circuitos de um computador. O tempo de escrita vai escasseando e, em mês de mais um aniversário, resolvi juntar aqui, de forma pouco cuidada, uma mão cheia de cenas cuja lembrança é apenas vestigial. Algumas são mesmo muito fugazes.

Vejo-me, muito criança, a brincar com um jacaré de plástico colorido, articulado, e com  os cubos de madeira com puzzles nas faces. 

Lembro o cachimbo perfumado do pai, dele a soprar bolas de sabão com fumo dentro, e nós a corrermos atrás delas para as rebentar.

Houve uma época em que se repetiram as experiências de brincar  do pai, a mostrar como funciona a eletricidade, uma pilha enorme, usadas nas comunicações da via férrea, fios de cobre, uma lampadinha de lanterna, um frasco de vidro, um limão…

Um dia chegaram lá a casa mulheres de negro a chorar. Não me disseram o que estava a suceder, e não entendi. Só depois. Feitas as contas, tinha eu quatro anos  quando morreu o avô António.

Durante uns dias o chão ficava azul, e eu gostava muito da transformação. Uma miríade de frágeis flores, pequenas e alongadas, formava um grande e efémero tapete. Na minha imaginação, cada uma delas assemelhava-se a figuras femininas que via nos livrinhos infantis, damas de vestidos longos e cabeças cobertas. Eram as flores do jacarandá a cobrir o chão.

Deu-me para sentir na língua como seria aquela pérola de aço, brilhante e pesada. Distraí-me e engoli a esfera de rolamento. Não detectei a sua saída, por processos naturais, e fiquei preocupado. Durante um tempo, perguntei em família se uma ou outra dor que sentia no momento poderia ser causada pela pequena esfera. Quando se tornou motivo de troça, deixei de falar no assunto. 

Foi um delírio, aquando do regresso do pai, vindo de Cape Town. Na mala, muitos e entusiasmantes brinquedos para nós. O que mais gostei foi de um avião planador, lançado por uma fisga poderosa. 

Não sei onde, encontrei um cilindro de ferro, pesado, que cabia na palma da mão. Um dia, ou melhor, uma noite, descobri que o objeto ferrugento, quando atirado com força de modo a raspar numa superfície de cimento, soltava muitas faíscas.  Um pequeno e mágico fogo de artifício.

Lembro-me bem da mãe cozinhar num fogãozinho de metal amarelo com três pernas, e que funcionava a petróleo. Tinha uma só boca e, volta e meia, necessitava de mais pressão, pelo que se empurrava e puxava repetidamente o pistão.   Impurezas acumuladas no queimador reduziam a eficácia e lá ia o pai desentupir os orifícios com um arame fininho encaixado num cabo metálico.

Depois veio o fogão elétrico. Para família de ferroviário, a energia a baixo custo era uma benesse, e possibilitou esse luxo e outros eletrodomésticos. Foram aparecendo  o frigorífico GE, o tal fogão, o chuveiro elétrico, a enceradora…

Periodicamente, a mãe raspava o chão de cimento lá de casa, lavava tudo, esfregava toda a superfície com um pano  embebido em cera vermelha e, depois de secar, era a vez de passar a ensurdecedora enceradora.

O fogão elétrico vem ligado a outra memória: vejo-me, ainda criança, a colocar bem encostadas a um disco quente, as aparas que a mãe tinha cortado da peça de carne para a refeição. Por mais duras que fossem, depois de transformadas em torresmos, eram uma delícia. “Sai que me sujas o fogão!” dizia a mãe, mas deixava-me “cozinhar” até ao fim.

Na vida das crianças havia um facto incontornável: mais tarde ou mais cedo, os parasitas apareciam. Lombrigas grandes, pequenos oxiúros, piolhos e carraças, todos nos acompanharam a casa. O pente para lêndeas tinha muito uso.

Todos os anos havia uma invasão de bissonde. Se nos distraímos, as picadas dolorosas nos pés e pernas despertavam a nossa reação imediata. Cravavam-se tão fundo que, quando retiradas da pele, só saia o resto do corpo, a cabeça ficava presa. Hordas desta grandes formigas chegavam às casas em filas ameaçadoras,  e só o fogo ou venenos as detinham. Para as desviar das portas faziam-se linhas com sal.

Talvez no primeiro ano da escola primária, devia estar montado um esquema para alguns pais se revezaram no transporte de crianças para as aulas, e depois para casa. Um dia, houve acidente com o carro de um vizinho que levava vários miúdos. Vi a outra viatura aproximar-se rapidamente e embater do meu lado. Não houve feridos.

E por agora ficamos aqui, outras memórias  virão depois. Tive o cuidado de evitar cenas captadas nos filmes super-8 feitos pelo  pai. Vimo-los tantas vezes que é difícil destrinçar entre a memória real das cenas e a memória de as ver repetidamente.

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