GOELAS GELADAS

Em pleno verão, a água daquela bica gelava as goelas. Assim mesmo, que fui verificar ao dicionário e escreve-se com “ó”, mas a soar a “ú”. Nunca tinha escrito tal palavra, e há anos que não passava no pensamento, mas não se me ocorre outra para descrever a sensação gravada na memória, um misto de alívio da sede, e de uma vontade súbita de protestar pela desagradável e inesperada  contração da garganta. 

Ficava esta fonte nas traseiras de uma desengraçada e cinzenta capela à beira da velha estrada nacional que ligava Braga e Chaves. Muito diferente do traçado amaciado, alargado e asfaltado que hoje torna a viagem mais rápida e segura, a estrada antiga era um tormento de curvas e contracurvas, pavimento estreito e escorregadio, trânsito intenso e condutores temerários, para não adjetivar menos eufemisticamente. De bom tinha as vistas alargadas para o vale do Cávado e suas albufeiras, e para o maciço de cumes carecas do Gerês, lá mais ao longe, para o verde Barroso, mais perto, e também carvalhais aqui e além, gado a cruzar a estrada sem aviso,  e variados cenários bucólicos, rurais, ou simplesmente desconcertantes.

Bebida a água fresquíssima, e desanuviado o condutor, ou substituído, era tempo de seguir viagem. Concedo que ainda não disse como fomos desencantar a tal fonte fria, sobretudo por estar num local onde não seria expectável pararmos a viatura. A resposta é simples, descobrimos a informação num livro. Houve um tempo em que não se usava GPS, nem mapas digitais. Muito menos as aplicações para telemóvel, com sugestões e abundante informação sobre os mais variados pontos de interesse. Usava-se o mapa das estradas, puído nas dobras, e um ou outro volume da coleção “Guia de Portugal1”, escolhido para cada viagem. Estes livros, de capas verdes e papel bíblia, liam-se com curiosidade durante as viagens, e incluíam um manancial infindável de monumentos e sua decodificação, de histórias e episódios ocorridos em cada terra, de informação sobre personagens importantes do passado, e muito mais, numa prosa agradável. Tudo bem organizado ao longo das estradas, e o mais difícil era escolher o que visitar, para não prolongar demasiado a duração das deslocações, já de si tão longas.

Ao encerrar esta memória gostaria de abrir a porta a um caso de erro, improvável mas possível… E se não foi assim? Estarei a ser enganado pelo cruzamento de duas memórias que, de facto, não coincidiram naquelas coordenadas? Terá de ser feita a verificação2.

NOTAS:

1- Editados pela Fundação Gulbenkian, ainda estão à venda.

2- Fiquei a saber, quando escrevi este texto, que foi feita uma versão digital dos guias. 

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