A primeira vez que olhei para o planeta anelado, e tive a certeza da sua identidade, foi em troca de uma nota verde.
Claro que já vira a sua luz no firmamento, e comparado a sua posição relativa com o que mostram as cartas celestes. E tinha espreitado através de binóculos, e também virado para ele uma teleobjectiva, adequadamente estabilizada por um tripé, mas não tinha visto mais do que a mesma mancha branca de sempre, apenas maior e mais baça. Nada semelhante aos desenhos que via nos livros desde miúdo, ou às fotografias nas enciclopédias de juventude, ou ainda às imagens dos programas de divulgação científica na televisão. Uma decepção. Daquela vez foi diferente. O telescópio era de amador, mas tinha boca muito grande e um robusto tripé. Estava ainda equipado com um sistema motorizado de compensação do movimento de rotação da Terra (chamado montagem equatorial).
Um cartaz num cavalete de madeira tinha um desenho do planeta, e convidava mais ou menos assim: venha ver Saturno, só 1 dólar. Paguei imediatamente.
Ao espreitar pela ocular, vi uma grande mancha, e perguntei onde se focava a imagem. Depois de ajustar com cuidado a roda indicada, Saturno surgiu tão nítido que parecia em relevo, vestido com os seus anéis estriados. Ah! Deslumbrante!
Esta memória vem à superfície com alguma frequência, especialmente em noites estreladas, ou perante belas imagens do céu noturno que me chegam de vários modos. Estava eu em Baltimore, para participar num congresso que teve lugar no já longínquo ano de 1997, nas instalações clássicas do Campus da Johns Hopkins University. Uma das noites, por recomendação de alguém (“já foste ver?”) fiz uma visita ao Passeio Marítimo. Organizado com base num conceito de urbanismo que não havia por cá, agradou-me bastante, e a surpresa do improvisado observatório foi a cereja por cima do bolo.
Algum tempo depois, em família, tivemos oportunidade para espreitar por telescópios, grandes e pequenos, para ver um menu diversificado de astros. Foi nos eventos promovidos pelo programa “Astronomia no Verão”, e os filhotes gostaram muito. Apesar disto, recordo a observação de Saturno com um sorriso. Aquele dólar foi o mais bem gasto de toda a minha vida. E recebi um pedacinho de papel com letras que diziam “I saw Saturn”.