DUAS RODAS

A máquina tinha rodas de 26 polegadas e cheirava a borracha nova. Vinha com o quadro e o garfo pintados de verde, que era já a minha cor favorita, e a marca em letras brancas. A bicicleta, prémio familiar pelo bom desempenho escolar, chegou da cidade mais próxima sem anúncio prévio. “Anda aqui ver uma coisa” disse-me o pai, decorriam os dias calmos das férias grandes. E fui, sem estranhar a companhia de mãe e irmã, um pouco atrás. Semi-embrulhada em cartão e com poeira vermelha acumulada na viagem, lá estava a surpresa. Recebida com entusiasmo, a bicicleta tornou-se indispensável daí em diante.
De manhã, antes de pedalar para o liceu, uma corridinha curta à padaria comprar o pão, por vezes ainda morno, para o pequeno almoço da família. No intervalo grande, a bicicleta permitia escapadelas ao mercado, para comprar cana-doce que se começava a mastigar em andamento. Ou uma visita à loja mais esconsa para comprar mata-ratos. Ou apenas para uma voltinha descontraída pelas ruas da vila.
De tarde, a seguir ao estudo, o transporte de duas rodas era útil para os recados, quando os havia: entregar notas de dívida, buscar encomendas à estação dos comboios…
Seguia-se o convívio diário com os amigos, que durava até um pouco antes do jantar, sempre à horinha certa pois os atrasos não eram tolerados.
Companheira de ócios e dos tempo livres, a bicicleta permitia a exploração das cercanias usando os muitos caminhos de pé posto. Qualquer barranco era uma pista improvisada de ciclocross, e as visitas a uma quinta próxima da vila eram ocasião de mergulhos refrescantes no turvo tanque de rega*. Mais divertidas ainda eram as cavalgadas na burra que estava sossegada no curral. Aspecto enganador, pois, quando montada, saltava desengonçada. Muitas vezes nos atirou ao solo, poeirento e com bosta. Mais um mergulho no tal tanque e a sujidade ficava diluída. Estas e tantas outras aventuras alegravam a rapaziada, para além, claro, das competições velocipédicas.
As corridas informais eram recorrentes, tal como o vencedor. Era sempre o C, pois tinha na sua bicla o que mais ninguém possuía, um carreto com menos dentes. E dois ou três dentes faziam toda a diferença. No arranque ficava para trás, mas recuperava na primeira recta, onde beneficiava da maior desmultiplicação que o carreto lhe dava, e não mais largava a primeira posição.
Já não me lembro em que ano, o pai dele, vá-se lá saber porquê, organizou uma competição. Publicitada amplamente, integrada nas festas municipais, a corrida de bicicletas teve muitas pessoas a assistir às voltas que os pedalantes deram pelas ruas alcatroadas. Foi emocionante, e não cheguei à meta no grupo dos últimos. Quanto ao meu colega ganhador, pedalou sempre no pelotão da frente, mas o senhor C sénior quase não teve o afogueado C júnior a ganhar a medalha, pois os campeões das terras vizinhas iam manchando o orgulho familiar.

Nota

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