Coloquei-lhe a rã na mão, mas a senhorita não resistiu. Era muita pressão para ela, e não foi capaz de fechar os dedos sobre o inofensivo animal. A algazarra que se seguiu foi grande, com muitas mãos a tentarem agarrar o escorregadio anfíbio que as driblava sucessivamente, saltando pelo soalho gasto da sala. Finalmente, a rã exausta escondeu-se no escuro, por baixo de um armário, e apanhei-a sem mais dificuldade. Quando foi trazida à luz, estava transformada. Parecia coberta de pelos, um palpitante boneco de peluche. A imprevisível metamorfose deveu-se ao pó de vários anos que estava acumulado sob o armário, e que se tinha colado à pele húmida do assustado animal.
Importa agora contextualizar a cena caricata. A sala era um laboratório para aulas nas antigas instalações da faculdade, no edifício que alberga agora a reitoria da Universidade do Porto. Eu era recentemente licenciado, e cumpria o segundo ou terceiro ano de docência, ainda como assistente estagiário. A aula era uma prática sobre caracterização de anfíbios. Por tradição da casa, usava-se uma coleção de animais conservados formol, guardados em frascos e tinas de vidro espesso. Descoloridos, deformados por anos de manipulação, estavam feios e com cheiro horrível, exatamente o oposto do que é necessário para cativar os mais preconceituosos ou os menos interessados. Naquele ano, o NF sugeriu usar também animais vivos nas aulas. Excelente ideia, pois a observação em vida permite ver as cores verdadeiras, ver detalhes e formas reais, e ainda acrescentar dinamismo às aulas e satisfação a quem tem gosto pela vida selvagem. Contudo, mesmo as excelentes ideias esbarram em problemas não antecipados por nós, pois não nos passou pela cabeça que, no curso de Biologia, tal pudesse suceder. Mau julgamento. O facto é que uma grande parte das alunas demonstrava mais asco pelos animais vivos do que pelos de conserva. E digo isto sem qualquer sexismo. Os senhoritos, mais à vontade, não se manifestavam, talvez fazendo-se durões.
O resto da aula decorreu sem incidentes. Contra as minhas expectativas, muitos recusaram manusear rãs, tritões e sapos. O fiasco repetiu-se na aula seguinte, com vários répteis vivos: cobras, lagartos, e até um cágado. Das seis dezenas de alunos da disciplina, apenas uma dúzia de entusiastas apreciou aquela tentativa de inovação.
Quando era novo não sabia nada. Ou melhor, sabia muito pouco da vida, era ingénuo, acreditava no esforço e na dedicação, na honestidade intelectual, no brio profissional… E exigia dos outros a mesma atitude. Se eu fazia esforço para ensinar melhor, esperava igual desempenho dos alunos. Tanto mais que a quase totalidade deles estava a fazer a formação para serem professores do ensino básico ou secundário. Eu pensava que eles tinham de ir além dos respectivos preconceitos, limitações ou gostos pessoais, tudo em favor das matérias que teriam de abordar ao longo da vida, nas escolas onde seriam colocados. Estava enganado. Uma boa parte delas e deles cumpria apenas os mínimos para obter o diploma que garantia o acesso à carreira, numa época de carência de pessoal docente. E também, como se fosse um prémio merecido, emprego garantido e vitalício na função pública.
Posteriormente, encontrei muitos alunos dos tempos em que a maioria deles se tornava professor. Falei com eles nas décadas seguintes, na rua ou num transporte público, mas, principalmente, em congressos, em palestras que me convidaram a fazer nas escolas, e em tantas acções de actualização, organizadas por mim ou com o meu contributo, na universidade e fora dela. Ao longo do tempo, pude confirmar que estão distribuídos por três grupos. O primeiro é o dos bons, conhecedores, dinâmicos, comprometidos com a profissão, dinamizando saídas e clubes de alunos, elaborando candidaturas para melhorar os equipamentos e as funcionalidades da escola… Depois temos os assim-assim, pois nem todos conseguem ou querem ser bons, e integram o segundo grupo. Finalmente, os outros estão no terceiro e maior grupo. Deste fazem parte os que se fazem invisíveis na escola, os que nunca assumem compromissos não lectivos, os que não ajudam, os que desertam mal toca a campanha de saída, ou os que não se actualizam, a não ser que a isso sejam obrigados. Quando o são, escolhem as acções de formação que são básicas e as que não dão trabalho, de preferência as que não incluem avaliação da aprendizagem. Nas acções mais sérias, protestam contra a avaliação, por vezes com argumentos inapropriados, ou mesmo sem noção do ridículo. Os maus não querem ser avaliados. São o pior que pode calhar aos seus alunos, e os grandes responsáveis, a par de muitos encarregados de educação, pela falta desta, pela inexistência de espírito crítico, pelo facilitismo e pela incompetência de quem lhes passa pela mãos.
Para terminar esta memória contaminada por reflexão tão pessimista, devo afirmar-me em paz com a consciência, pois sei que proporcionei aos meus alunos todos os ingredientes para se tornarem bons profissionais. Uns quiseram, outros não.
NOTA
ler outro texto com professores (O coxo do sapo…)