ATIREI O PAU AO…

Encontrámo-nos a meio do caminho enlameado, como se fosse um duelo. Para me amedrontar, ergueu-se ao máximo, tentando parecer maior do que era na realidade. Dei-lhe com um pau e acabou o combate, tão rapidamente como tinha iniciado. 

Contada deste modo a memória vale pouco, pelo que, agora, vou repeti-la em câmara lenta como no cinema, com direito a flashback e tudo, e juntando mais detalhes ao guião.

Indo eu para a escola, tomei o percurso habitual, o caminho de terra que atravessava os tanques de concentração, que ficavam do lado direito, e  os canais de ligação e os tanques de evaporação, do lado esquerdo. Os flamingos rosados pastavam nos primeiros, mais profundos, e afastavam-se lentamente ao  sentir a minha aproximação. Pequenas aves limícolas faziam movimentos frenéticos nos tanques de evaporação, aqueles quadrados rasos que são conhecidos como salinas, um sistema complexo constituído pelos vários tanques e canais. Nestes, era frequente ver um ou outro pescador de caranguejos azulados e peludos, manobrando uma aduela com rede, no centro da qual uma cabeça de peixe bem amarrada fazia de isco. O artista só tinha que deixar a armadilha afundar, presa com um cordel, esperar uns minutos, e içá-la rapidamente. Muitas vezes tinha prémio. Eu não me demorava demais no caminho mas, muitas vezes, com detritos que encontrava no local, um pedaço de esferovite, um pauzito a fazer de mastro, e um plástico a fazer de vela, construía barquinhos rudimentares que o vento levava para longe.

Um belo dia, é sempre um belo dia quando contamos uma das histórias preferidas, ia eu para a escola quando vi o obstáculo no caminho. Por alguma razão que não alcancei, ele não fugiu como acontecia habitualmente. Ficou parado, como que barrando o acesso, e o caminho tornou-se estreito com a sua presença. O bicharoco  grande, o maior que alguma vez tinha visto daquela espécie, empertigou-se nas suas oito patas e abriu as tenazes levantadas ao céu. O grande caranguejo do mangal, nome comum pelo qual era conhecido, com a minha aproximação, assumiu uma atitude ameaçadora, uma  defesa típica de muitos animais quando falha o disfarce. Com efeito, aqueles caranguejos da cor da lama do caminho passavam despercebidos, não eram visíveis com facilidade. Perante o obstáculo, entre os meus neurónios de primata circularam milhares de electrões em busca de solução. Olhei em volta e vi um caniço meio seco na margem do canal. Peguei nele e dei uma pancada rápida no animal. O som abafado que a carapaça fez ao abater com o pau, desfazendo-se como barro mal seco, muito diferente do que eu conhecia de outros crustáceos, indiciou a fragilidade do bicho e talvez explique porque não fugiu. Teria efectuado a muda pouco tempo antes? O facto de estar quase completamente oco assim o indica, mas eu ainda não  sabia nada disso. Com a fera morta, o caminho alargou-se e segui em frente.

Fiz aquele percurso vezes sem conta… Em todas elas, uma aventura diferente.

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