O envelope azul chegou sem remetente, apenas com destinatário e morada: Paulo Santos, Rua Almirante Leote do Rego nº 50, Porto. Obviamente, não era uma carta, pois vinha bastante gordo. Magra, estava dentro a minha carteira, roubada alguns dias antes.
O incómodo percalço ocorreu no transporte público, nos primeiros anos de faculdade. Os autocarros circulavam tão cheios que, muitas vezes, as portas só fechavam já em andamento. Depois de alguns abanões da viatura, os passageiros compactavam-se ainda mais, contra a sua vontade, criando o espaço necessário e permitindo a entrada dos que tinham ficado apenas com metade do corpo do lado de dentro. Impensável nos dias de hoje. Pouco depois da minha saída, dei um toque com a mão no bolso, como fazia regularmente, e constatei imediatamente que faltava a carteira. Nesse dia, tinha vestido o blusão de ganga, e olhei para o bolso vazio, em confirmação desnecessária. De repente, tudo ficou claro para mim. Aquele encontrão, que pareceu natural no meio do aglomerado compacto de passageiros, poderia ter sido tudo menos ocasional. Afinal, ser alvo de carteiristas não acontecia só aos outros.
Fiz o balanço das perdas e antecipei, com desagrado, a trabalheira que teria pela frente para obter novamente o bilhete de identidade, o passe para os transportes públicos, e o cartão de estudante. Ironicamente, como não tinha lá dinheiro em notas, apenas algumas moedas, o prejuízo não foi relevante.
Quando a surpresa chegou a casa, constatei que o valor pago pelo envio, a avaliar pelos selos colados no sobrescrito, era superior ao que eu tinha na carteira, quando me foi subtraída. Nunca saberei quem me devolveu a carteira, se o larápio que a levou, se outro cidadão que a tenha encontrado, abandonada pelo primeiro. Agradecido, agarro a possibilidade mais colorida de me ter cruzado, pelo menos uma vez na vida, com um ladrão com ética.