Depois da tempestade, vem a…? Errado, vem a lenha. Trocando por miúdos, sempre que havia uma tempestade no Porto, ficavam ramos e troncos caídos na via pública, em jardins e também nos parques públicos. Por vezes tombavam árvores inteiras, e não se podiam perder as oportunidades de aproveitar aquele recurso natural, pois a lenha era útil para as nossas churrascadas e para a salamandra da sala. Contudo, apesar de proveitosas, essas ocasiões eram raras. Mais regulares eram os restos de podas municipais. Ficavam dias à espera que lhes dessem destino e, muitas vezes, poupei-lhes trabalho. Outros locais onde recolhemos restos de madeira foram as praias, depois de cheias do Douro, que nelas depositava todo o tipo de materiais, e também nos enrocamentos da Cantareira e do Passeio Alegre. Frequentemente, recolhemos barrotes e troncos abandonados nas bermas de estradas secundárias, aquando dos nossos passeios de domingo. Esta memória ficaria incompleta se não indicasse outra origem para a lenha. Durante vários anos, talvez pelo seu baixo custo e não reutilização, apareciam paletes de madeira junto aos contentores do lixo. Com abundância e regularidade, as lojas e armazéns que recebiam mercadorias acumuladas nesse tipo de suportes viam-se livres deles colocando-os no lixo. Muitas vezes, por exemplo no regresso da escola, surgia de um de nós a exclamação que intitula esta memória: olha ali uma palete! E era imediatamente recolhida.
O hábito de aproveitar restos de madeira para usar como lenha foi aprendido com os sogros. Muitos caixotes com lenha nos deram, já cortada por eles em pequenos pedaços, ela a segurar, ele a serrar. Por vezes, também eu ajudava. Depois, pensei que tinha de ser auto-suficiente, e comecei a organizar a nossa reserva de combustível aproveitado.

Não bastava recolher o material, quando dele havia abundância. Era imprescindível fragmentar em pedaços mais pequenos os troncos, ramos, barrotes e tábuas, secá-los, se necessário, e arrumar tudo, bem protegido da chuva. De início, fazia a tarefa com uma serra de arco e um martelo. Mais tarde, passei a usar uma motosserra, um machado e ainda, para os toros mais rijos, duas cunhas de ferro e uma marreta. Tosco no início, aprendi a usar as ferramentas adequadas com o experiente sogro. E também o método para arrumar os cavacos no menor volume possível, encaixando-os e dando a inclinação adequada a cada pedaço.

Rachar lenha e arrumá-la em lotes para secar, durante meses, na garagem ou no terraço, eram tarefas pesadas, executadas com ajuda da família. Mas, três ou quatro horas de machado, deixam a espinhela caída a qualquer amador. Por isso, a compensação vinha em seguida, uma hora a relaxar na banheira com água bem quente, com jornal e música, a anestesiar os músculos do lenhador urbano.