A caixa de madeira chegou com muita antecedência, e foi muito bem recebida. Vinha de longe, oito mil quilómetros mais a norte, e era o modo dos avós europeus estenderem o espírito natalício ao filho, nora e netos, no “verão” africano passado na quente e muito húmida cidade do Lobito. Dentro, vinha coisa boa. Desde umas postas de lombo de bacalhau, até às guloseimas que não apareciam no nosso mercado, ou eram caras quanto bastava.
Para a despensa foram as avelãs, as nozes e as amêndoas. As respectivas cascas seriam removidas ao serão, em trabalho colectivo da família. O pai usava um martelinho, a mãe o quebra-nozes, e a nós cabia separar o miolo. Para o frigorífico foram os produtos mais perecíveis: os pinhões descascados e as frutas desidratadas, uvas passas, peras secas, figos secos, ameixas secas, e não me lembro se mais alguma daquelas coisas vulgares para muitos, mas preciosidades para nós, pois só as víamos naquela festa anual.
Eu abria o frigorífico todos os dias, e aquilo a olhar para mim… A tentação era grande, e acabei por ceder. Eu e não só, pois também a irmã cedeu, e, sem sabermos um das investidas do outro, mordemos cada um o seu isco. Pensei que era só uma vez, mas não foi assim. Uma coisinha hoje, outra delícia amanhã, até que o resultado ficou à vista. Se a encomenda não tivesse chegado com tanta antecipação, nada de grave se teria passado. Mas passaram muitos dias, e o descuido progressivo foi a causa do desastre.
Quando se descobriu que algumas das caixinhas e pacotinhos estavam aliviados de uma boa parte do seu doce conteúdo, a casa ficou em furioso alvoroço. “Quem comeu as peras secas? E a fruta cristalizada?” Só me ocorreu responder: essas não fui eu… E à irmã a mesma coisa, evidentemente, cada um a pensar mais no que não tinha comido do que na culpa evidente.
Não me lembro do que foi o castigo, certamente salomónico como era habitual, mas as deliciosas e pastosas ameixas secas, pretas e luzidias, valeram bem a pena.
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