Ouvimos um barulho forte no tejadilho do Land Rover, e tomei consciência do acidente grave que tinha ocorrido naquele instante. Olhei pelo retrovisor e confirmei a presença de uma massa caída na faixa de rodagem da auto-estrada. Estava noite bem escura, e só era visível à contraluz dos carros que vinham ao longe.
Parei imediatamente, aflito, e fiz marcha-a-ré pela berma, com os piscas comutativos ligados. Saí rapidamente e corri em direcção ao problema, agitando os braços, fazendo sinal para os carros se afastarem. Os primeiros a passar desviaram-se, mas não cheguei a tempo de evitar que um condutor distraído atropelasse o ninho de cegonha caído na auto-estrada. Foi arrastado por uma trintena de metros, soltando abundantes faíscas com a abrasão do asfalto na sua armação metálica e fazendo um ruído indescritível, até à imobilização da viatura.
Tivemos muita sorte. Vendo bem, a situação poderia ter provocado o despiste de uma ou mais viaturas, o que teria acarretado consequências muito mais graves.
Chegados aqui, é necessário fazer o devido enquadramento para que possam entender os antecedentes do acidente. Já expliquei* noutra memória que as cegonhas, hoje tão abundantes, não o eram nos anos noventa do século passado, pelo que a colocação de ninhos artificiais em locais estratégicos constituía-se como relevante operação de conservação da natureza. E a nossa associação foi pioneira nesta acção de recuperação da população nacional desta espécie, construindo e colocando ninhos, incentivando escolas e colectividades a fazer o mesmo, organizando demonstrações de norte a sul do país, e colocando notícias nos jornais e nas televisões sobre as nossas actividades e a denunciar a destruição de ninhos. Nesse fim de semana houve uma espécie de feira sobre conservação da natureza, em Ourém, e lá fomos. Levámos um ninho já pronto e um cartaz, explicando como os fazer a partir de uma armação circular de 1,5 metros de diâmetro, feita de ferro para durar, e ainda rede de galinheiro, ramos e palha. Lembro-me da boa receptividade que tivemos, bem como dos elogios recebidos.
No regresso, talvez a maior velocidade e o vento mais intenso se tenham aliado sem avisar. Em consequência, rebentou uma das amarras de borracha que prendiam o pesado ninho ao tejadilho. Talvez já estivesse velha demais para ser usada naquelas condições, ou tivesse ficado danificada na viagem de ida. Ou então, simplesmente, foi azar.
Ficou o farol partido e o pára-choques amassado. Combinei com a vítima que pagaria o conserto, o que ele aceitou sem desconfiança. Afinal, não é todos os dias que ocorre um acidente tão improvável. Depois, fomos todos para casa. Nessa altura andava curto de fundos, e a despesa foi partilhada entre mim e a associação.
E o que sucedeu ao ninho, estarão a perguntar. Destruído, ficou abandonado junto ao terreno ao lado da auto-estrada.
Notas:
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