VACARIA DAS ANTAS

As duas vacas malhadas viviam na cidade. Moravam paredes meias, se assim se pode afirmar, com uma das zonas chiques do Porto, a antiga praça Velasquez.

No final dos anos oitenta e início dos noventa do passado século, a vista do nosso terraço virado a Nordeste era ampla de horizontes e diversificada. Desde a Serra de Santa Justa, ao longe, ao antigo estádio das Antas, tão perto, tão ruidoso, da sineira torre da igreja, mais a poente, à Quinta dos Salgueiros (ou Quinta dos Ingleses) com o palacete oitocentista em ruínas destacado no jardim abandonado, havia muito que ver. Contudo, mais perto que todos os referidos itens, e destoando  completamente deles por estar no meio da zona urbana, ficava uma vacaria. Alojada num antigo e atarracado edifício rural, alongava-se paralelamente à avenida Fernão de Magalhães, pertíssimo da igreja. Não era visível da rua, apesar de se localizar quase no topo da actual avenida dos campeões europeus, também conhecida pelo seu nome oficial, alameda das Antas. Logo abaixo estava o alimento das vacas. O pasto verde tinha menos de dois hectares e, mais abaixo ainda, ficava outro espaço agrícola, já abandonado, meio coberto de mato e pequenos sobreiros, e que se prolongava até ao local onde está hoje o novo estádio. 

O leite era bom e, um par de vezes por semana, íamos buscar dois litros dele para as nossas crianças, ainda pequenas. À moda antiga, para a indispensável esterilização, fervia-se mal chegávamos a casa. E sim, por vezes havia esquecimento e o leite aquecia mais do que devia, e vinha para fora do fervedor. Ficava a casa empestada com aquele cheiro característico, muito desagradável, e era obrigatório fazer a limpeza do fogão. O pediatra concordava com a opção do leite fresco, por oposição aos vendidos já embalados. Nesse tempo em que a lei era mais frouxa e os rótulos quase nada diziam, se bem que se falasse muito de conservantes tóxicos, pouco se fiscalizava. Mais valia confiar no lavrador leiteiro.

Quando os terrenos foram cedidos ao FCP, a vacaria acabou e ocuparam os espaços com dois campos de treinos, relvados e vedados com redes metálicas. Não havia lugar para público, mas havia sempre um ou outro mirone, do lado de fora, claro. Frequentemente, um grupinho de catraias aparecia à hora do treino. Juntavam-se atrás da baliza do Vitor Baia, mãos agarrando a vedação como que agarrando-se a ele, e davam gritos, distraindo o rapaz: “Vitor, Vitor!”. Ouviam-se no quarto andar.

Mudámos para outra vacaria, situada ao fundo da rua de Contumil, pois não queríamos prescindir dos benefícios do leite que vinha directamente das tetas da dona malhada. Por pouco tempo. Alguns meses depois, também fechou.

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