PENSÃO DA ESTAÇÃO

Em 1984, o combóio ia até ao final da linha do Douro, em Barca d’Alva, e nós fomos lá. A viagem de ida, demorada, valeu pelas paisagens, e por vistas de  terras nunca por nós visitadas.

Era o primeiro ano em que ambos tínhamos empregos a tempo inteiro, e as férias de verão nunca mais chegavam. Por isso, um feriado junto a um fim de semana em junho veio mesmo quando fazia falta. Fomos de improviso, como tantas vezes nos anos seguintes para destinos muito mais distantes. Chegados ao fim da linha, a poucos metros da fronteira, e como não levámos a tenda, pois tínhamos decidido que aquelas férias seriam diferentes (afinal, já podíamos pagar), ficámos na Pensão da Estação, que ocupava o piso de cima. Espartana, era gerida por um adorável casal de velhotes, e a janela do quarto que nos calhou tinha vista para o rio. E ninhos com andorinhas no beiral. E um pequeno-almoço diferente, com grandes fatias de pão saboroso. E…

Demos longos passeios a pé, nas margens do Douro e do Águeda, que ali tem a sua foz, separando as nossas das terras de Espanha. Binóculos ao peito, tripé e teleobjectiva ao ombro, bucha na mochila, foi um fartote de milhafres, grifos, abutres-do-egipto, andorinhas, papa-figos e de abelharucos, que tinham uma colónia num barranco arenoso por trás de um laranjal. E muitas outras espécies.

À boleia, fomos ao topo do Penedo Durão. Vista magnífica e muitas aves, mesmo ao nosso gosto. No regresso, ao fim da tarde, estava ainda um calor entorpecente, e fizemos os últimos quilómetros a pé, lentamente. Lembro-me das ameixas amarelas e sumarentas que estavam à espera da nossa passagem para nos cair nas mãos. E da água fresca de um poço a molhar as faces queimadas do sol.

A estação tinha pouco movimento, mas funcionava, com  utilidade para as terras em volta, e também para algum movimento internacional, através da velha ponte metálica sobre o rio Águeda. Alguns meses depois, o governo espanhol fechou a ligação ferroviária a Barca d’Alva. Do lado de cá, feito o balanço entre as funções e os custos de operação, estes pesaram mais na decisão política, e ditaram a desactivação do troço final da linha do Douro, em 1988. Os edifícios sem uso, sob a ação do tempo e dos vândalos, foram-se degradando até aos dias de hoje. Voltei muitas vezes a Barca d’Alva, mas não à estação abandonada. Em agosto de 2013  quis olhar para ela, e encontrei o mesmo aspecto desolador que conhecia de outras estações esquecidas pelos donos: Foz-Côa, Castelo Melhor, Almendra. Perdida a gloria, ao menos sobra a memória do tempo em que eram instalações fundamentais às populações do Douro Superior. E a casais urbanos em merecidas férias.

O Douro em Barca d’Alva. Fotografia de Paulo Santos

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