“Sim, mas tem de comprar bilhete para o cão.” Foi assim que o caixa me disse, quando perguntei se podíamos levar a Maia*, que estava na trela. Admirado, pois poderia ter ouvido mal, repeti inquisitivo: bilhete de cão!?
Tive de comprar também o tal “meio bilhete”, que era válido tanto para crianças como para animais. Nem esclareci a dúvida, mas fiquei a pensar se o pedaço de papel poderia servir para ovelhas, ou então para equídeos de quatro patas. Muito provavelmente, estes últimos, caso pudessem entrar, pagariam bilhete inteiro, tal como os asnos de duas…
Entrámos na carruagem em Mirandela, para conhecer a linha do Tua, quando ainda descia até ao rio Douro pelo traçado do século 19, acabando precisamente na estação do Tua, uma das muitas paragens da linha do Douro. As carruagens, contudo, já não eram as originais, nem sequer eram velharias de meados do século 20, como seria de esperar. Os materiais que estavam em circulação na linha eram autocarros modificados, com motor a gasóleo e espaço para cargas pequenas. Pintados de verde, até pareciam novos.

Calhou-nos em sorte um dia escuro, chuvoso, frio, mas estava decidido que íamos mesmo assim. O transporte saiu à hora marcada com metade da lotação, na sua maioria citadinos como nós, atraídos pelas notícias sobre o encerramento da linha. Dizia-se que estava previsto para breve, por falta de clientes, e pela segurança comprometida. Todos sabíamos que a verdadeira razão era a projectada barragem no rio Tua, aprovada antes de o ser, e causa primeira da falta de manutenção e desinvestimento… O destino da linha há muito que estava traçado, e a porção cénicamente mais relevante iria mesmo ser afogada.
Mesmo com a meteorologia do contra, a viagem foi agradável e fiz o respectivo registo fotográfico, competindo com outros passageiros por uma boa posição no vidro da frente, quando aparecia uma paisagem mais interessante. A Anjos foi sentada à janela, a bordar um quadro que, depois de pronto, esteve vários anos na parede da nossa sala. A Maia não apreciou o passeio e foi quase sempre deitada debaixo do banco, fugindo das pisadelas dos turistas descuidados. Chegados à estação do Tua, esperámos algum tempo e fizemos o percurso inverso até ao final da linha, em Mirandela. Não era possível ir mais adiante, o prolongamento a Bragança já estava fechado há uma década e meia.
A paisagem rochosa e verde da metade jusante daquele vale estreito por onde descia o rio Tua, melhor do que de combóio, merecia ser fluida em calma caminhada. Já o tinha feito anteriormente, quando organizei uma visita guiada com ajuda do PA, para ver de perto as árvores e os arbustos característicos do ecossistema, as plantas mais raras do leito de cheia, os mexilhões-do-rio, e também as aves mais conspícuas e outros vertebrados. Voltei a fazê-lo depois, com o ZP e o J. Desta vez fomos caminhando linha acima, do Douro até ao apeadeiro de Castanheiro. A meio do percurso, tivemos direito a espectáculo ao vivo, uma lontra a caçar no rio. Depois de comido o farnel, esperámos pela carruagem descendente e regressámos ao Douro. Foi a última vez que vi o rio Tua em estado selvagem. Poucos meses depois, o governo encerrou a linha na metade a inundar. E a barragem lá está.
Notas:
* Ler outro texto que escrevi sobre a Maia, * FECHA A PORTA.
