“Irra que o animal não se cala!” Zangado, o Guarda Fiscal caminhou uma dezena de metros em direcção ao seu animal, que ladrava há já um par de minutos. Parecia que se preparava para lhe dar um chuto quando recuou um ou dois passos e olhou em volta, como se estivesse à procura de alguma coisa. Depois, pegou num pedregulho e atirou-o com gana ao chão.
Fomos ver. Contorcendo-se descontroladamente na erva, uma cobra-de-escada não conseguia fugir. Tinha recebido a pancada no meio do corpo, quebrando a coluna vertebral, uma sentença de morte. Perguntei qual a razão para a atitude dele, e peguei nela com cuidado. Imediatamente, o homem exclamou: “Cuidado! As cobras são venenosas!” ‘Esta não, expliquei calmamente, e coloquei a minha mão junto à cabeça do ofídio para demonstrar que não tinha receio de uma eventual mordedura. Não mordeu mas, provavelmente, já não estaria com vontade de o fazer.
A cobra-de-escada, espécie comum na Ibéria, atinge metro e meio de comprimento e, pelo tamanho, pode assustar os mais impressionáveis. Os adultos distinguem-se bem pela coloração castanho clara, e pelas duas linhas escuras ao longo do corpo. O seu nome vem dos juvenis, que mostram traços a unir as duas linhas, parecendo o desenho de uma escada de mão. O nome científico (Rhinechis scalaris) refere essa característica distintiva. Apesar do tamanho, é inofensiva.
Os dois Guardas, únicos agentes das autoridades policiais naquela terra de fronteira, discordaram. Tal como aconteceu repetidamente ao longo dos anos, não só em ambiente rural mas também vindo de urbanitas. Diziam que não, que a mordida é muito perigosa, que o melhor é dar lhes com a enxada, que são bichos maus, que até vão aos berços roubar o leite. “E então as cabeludas, são as piores, peçonhentas!”
Tentei explicar que não existem cobras com pêlo, e que a confusão vem de olhos cansados perante restos da muda da pele. O mais obstinado teimou, que era mesmo verdade. Perguntei se alguma vez tinham visto. “Eu não, mas o meu avô tinha um amigo…” Argumentação típica. De todos os “crentes” com quem falei do tema, nenhum tinha visto. E as testemunhas nunca são identificadas.
Também lhe disse que as crianças aprendem os factos na escola, se tiverem um bom professor. E que sabem que a atitude correcta, se virem uma cobra, é deixá-la ir à sua vida. E que sabem que estes animais são ajudantes rurais, consumindo roedores prejudiciais, razão suficiente para justificar a sua protecção.
“Se o meu filho vier para casa com essa conversa, apanha logo porrada da boa! E vou à escola dizer para não enganarem os nossos filhos!” Se não foram estas as palavras, foi algo de muito parecido…
Aconteceu no já distante ano de 1984, na margem do rio Águeda, onde este alimenta o Douro, em Barca d’Alva. Longe vai o tempo em que a palavra dos professores merecia respeito. O que terão feito muitos deles para receber tamanha desautorização?