As duas furgonetas blindadas chegaram de repente, e de dentro saltaram os polícias antimotim, tomando posição envolvente de modo intimidatório. Ao ver a faixa de pano e a dúzia de manifestantes que a seguravam, ficaram mais calmos. O graduado dirigiu-se lentamente para nós, acompanhado pelo subalterno que, visivelmente irritado, fazia alguns comentários. Só ouvi o final, uma pergunta meramente retórica, pois tinha a resposta à frente dos olhos: “… são só estes?”
Parece estranho, mas foi mesmo assim, e passo já para a explicação do contexto. O enredo começara muito longe, em Niza, onde uma colónia de andorinhas-dos-beirais, a maior da terra, tinha sido destruída com autorização de alguém do ministério do Ambiente. Três ou quatro centenas de ninhos derrubados do edifício do tribunal, porque alguns empertigados teriam ficado com a toga cagada. E passou-se este episódio pouco ético numa região que sempre convivera com as graciosas aves, aceitando os seus aspectos negativos em troca das muitas vantagens por elas proporcionadas…
Não satisfeitos com a “limpeza”, mandaram tapar os beirais do grande edifício com redes, impedindo a construção de novos ninhos, ignorando outras soluções sem esse efeito negativo. Para completar a vileza, viemos a saber que a colocação das redes não tinha sido autorizada.
Apresentámos no tribunal uma queixa contra ele mesmo. Denunciámos a situação nos jornais e pressionámos a ministra de várias formas, incluindo ofícios e manifestações em eventos com a presença dela. Tentámos também sensibilizar a população de Niza com um cortejo e uma palestra na praça principal, mas as reacções foram díspares, chegando mesmo um bruto exaltado a agredir o amigo S. que tinha organizado tudo com moradores da terra.
E agora regresso ao início desta memória. Soubemos que a governante estaria presente numa reunião europeia na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, e preparámos a manifestação. Na data prevista, bem cedo, uma dezena de pessoas baixou até à capital, e juntaram-se dois ou três locais. Quando começaram a chegar as altas individualidades, desenrolámos uma faixa de pano e distribuímos um folheto a cada viatura que parava na cancela de acesso à Fundação, bem como aos pedestres que entravam também, e aos que circulavam no passeio adjacente. A faixa pedia protecção às andorinhas e o folheto explicava o contexto. Foi coisa para três quartos de hora, no máximo.
Já tínhamos terminado a nossa operação quando as duas furgonetas chegaram. Alguém da organização terá feito um telefonema para as autoridades, pedindo ajuda contra uma manifestação de perigosos ambientalistas radicais. O graduado aproximou-se e avancei ao seu encontro. “Quem é o responsável aqui?” inquiriu em tom neutro. Respondi que era eu. Pediu-me os documentos de identificação, e depois os motivos para a nossa presença ali, ao que correspondi de forma didática. No final, já com um sorriso, disse que teríamos mesmo de sair dali, e expliquei que estávamos a arrumar para ir embora. Como que pedindo desculpa pelo exagero, informou: “Sabe que temos de enviar os seus dados aos Serviços de Informação da República?” Não sabia, mas não me importei. Ficar ficha nas “secretas”, por aquele motivo, era caso para me orgulhar.
Falta dizer que houve julgamento, e que um jurista qualquer do ministério emitiu um parecer onde atestava que as leis de protecção da fauna não se aplicam a andorinhas porque, sendo migratórias, passam parte do ano fora do país. Nem tinha importância o simples facto de nascerem cá… No final do julgamento, ouvidos os testemunhos e consultada a legislação nacional e as Directivas europeias, o tribunal condenou-se a si próprio a remover as redes, e as andorinhas voltaram a construir ninhos na primavera seguinte.
Para terminar, devo também informar que, infelizmente, a má ideia do tribunal de Niza foi reproduzida em vários outros edifícios no país. Poderá dizer-se que falhámos, que não fomos capazes de passar a nossa mensagem. Prefiro afirmar que não é certo que assim seja, pois desconhecemos todos os casos em que a ideia não foi avante.