TODOS VESTIDOS NO RIO

A família entrou completamente vestida no rio de água cristalina, ficando todos com água pela cintura. Depois de habituados à água fria, rodearam o pedregulho de metro e meio e agacharam-se em torno dele, ficando só com a cabeça de fora. Apalparam o fundo, como se estivessem à procura de alguma coisa, falando baixo entre eles.

Tinham chegado de tractor, de pé no atrelado, em grande animação. Na margem, à sombra dos amieiros e salgueiros, tiraram o calçado e as peúgas, que arrumaram no transporte. Apesar de estarem na outra margem, o rio estreito fazia-a muito próxima, e lamentei a quebra no sossego bucólico que até então tinha reinado.

Contextualização precisa-se. Era tempo de férias de verão, e fizemos um acampamento familiar no parque de campismo “Cepo Verde”, perto de Gondesende, entre Bragança e Vinhais. Situado numa zona de bonitos carvalhais e prados, permitia  passeios pelo Parque Natural de Montesinho, fins de tarde com as crianças na piscina,  fazer e comer as refeições, simples e saborosas, observar estrelas à noite…

Naquele dia, fomos ao acaso até darmos com o rio Tuela. Foi fácil encontrar um caminho rural e um local com sombra na margem, de galeria ripícola em bom estado. Excelente sítio para umas banhocas, descansar, e comer o farnel. Perfeito, mas durou apenas um par de horas, que aproveitámos  para amansar o calor na água fresca. Deu também tempo para lançar o anzol iscado com bolinhas de pão, sem grande resultado, e tínhamos começado a desbastar o repasto frio, quando fomos interrompidos pela perturbação. Pensei “Paciência que estamos na terra deles.”

Enquanto comíamos, observei-os e fiquei com curiosidade pelo estranho comportamento. Rodeando a pedra no meio da água, diziam frases curtas como “Aqui não há nada”, “Tem de haver”, “Sinto alguma coisa”… Quando menos esperava, um deles exclamou vitorioso: “Agarrei!” E ergueu a mão com uma truta estremecente… Década de experiência diziam-me bem como os peixes são escorregadios, e quão difícil é  segurá-los, especialmente na água. No entanto, e apesar de não constituir novidade para seres pensantes, a nossa ignorância até desconhece a sua magnitude. Eu não sabia que existe um método para agarrar peixes no seu elemento, e eles responderam à minha pergunta. Explicaram que “… basta mover lentamente a mão pelo sítio certo, até tocar levemente no peixe, de modo a não se assustar e fugir. Depois, apalpa-se suavemente para localizar os opérculos e, no momento certo, apertar o polegar e o indicador por eles adentro. Nunca mais foge.” Parece simples, não parece?

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