MORDAÇA

Esta memória podia ser sobre a de Camões, Pessoa, Aquilino ou Mia Couto, mas não, é mesmo acerca da minha: a língua.

Durante a juventude, a minha língua permaneceu muito calada, algo introvertida. Mais tarde, começou a soltar-se em consequência de um crescendo de autoconfiança. Esta foi chegando pouco a pouco, sustentada nos resultados escolares. E não só. Muito veio dos conhecimentos adquiridos pela leitura de livros e de enciclopédias, do exercício da busca de mais conhecimento pelo simples prazer de saber, hábito pouco comum na maioria dos colegas de escola, de liceu, e mesmo de universidade. Analisando agora algumas atitudes desse passado de afirmação, descortino mesmo uma certa arrogância. Inconsciente, é certo, mas inegavelmente verdadeira… Adiante que o parágrafo ficou longo e deixou a modéstia no teclado. O assunto a abordar é totalmente diferente disto, e esta memória é mesmo séria, embora mascarada de outra coisa. 

Ao dobrar o meio século de vida, apareceu ELA*, e algumas coisas começaram a mudar. De início, a língua não se sentiu afectada. Depois, ficou progressivamente mais lenta e preguiçosa. E parecia ter crescido, sempre a meter-se no caminho dos dentes, também estes parecendo mais crescidos, sangrando-a a cada combate mais violento. Depois de alguns anos destes desencontros foi o inverso, deu-lhe para mingar, a boca parecendo uma caverna cada vez maior, e a língua por lá perdida. Essa desorientação e fraqueza trouxe consequências várias, e uma delas foi a crescente dificuldade em transportar e embrulhar os alimentos. Contudo, o pior foi que, nas conversas, a língua começou a chegar atrasada. O tempo necessário para iniciar cada frase foi ficando tão grande que, muitas vezes, os diálogos tinham avançado e a intervenção perdia pertinência. E as respostas ou as soluções que tinha para os problemas começaram a ficar por dar. A projeção das palavras também se reduziu, e o discurso passou a ser pouco audível. Algumas vezes, familiares ou amigos apercebem-se da tentativa de falar e fazem pausa, chamando a atenção dos restantes. Mais recentemente, o transtorno acentuou-se e os lábios, mais fracos, não ajudam. O entaramelar crescente deturpa cada vez mais as palavras com “R”, com “L”, e as outras também. Tudo junto, torna a comunicação oral um trabalho detectivesco para quem ouve, e a língua desistiu de acompanhar o desenrolar de muitas conversas.  

Por razões óbvias, a língua passou parte da tarefa de comunicação simples a acenos cefálicos e à garganta. De facto, a produção de sons guturais é muito fácil e o processo, desde o pensamento até à emissão sonora, é mais rápido. Com este procedimento, substitui-se com vantagem e sem esforço um “sim” ou um “não”, facilitando a intervenção e não deixando o interlocutor à espera. 

Resta dizer que, apesar de toda esta mordaça, por vezes ainda arranco  sorrisos com observações espirituosas.

Notas

* ELA, esclerose lateral amiotrófica

ler outro texto que escrevi há uns anos sobre a ELA

e outro ainda sobre o aparecimento dos sintomas, com o título JÁ VIU A SUA MÃO?

e outro ainda sobre o que a ELA me trouxe 

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