FECHA A PORTA

Abriu a porta e entrou como se fosse dona daquilo tudo, escancarando-a e deixando o vento frio irromper na nossa cozinha regional. “Fecha a portinha!” disse eu com voz de comando. E ela, virando-se lentamente, como que indicando obedecer contrariada, fechou mesmo a porta.

A cena não teria lugar nestas memórias, não fosse ter-se repetido em incontáveis ocasiões ao longo dos anos, e ser protagonizada por uma rafeira, para espanto das visitas.

A cadelinha preta fez-nos boa companhia durante onze anos, e não se distinguiu particularmente pelas habilidades, mas pela meiguice e infinita paciência para lidar com as crianças, as nossas e as outras. Acompanhou-nos em muitas viagens, mesmo até ao Algarve, quando fazíamos a peregrinação natalícia. E em tantas outras, para irmos acampar, ou simplesmente para passear, e até quando ficámos uns dias num hotel. Dormia num tapete ou no carro, sossegadíssima. Adorava a água, e tinha a fixação de recuperar as pedras que se atiravam ao mar ou aos ribeiros, mergulhando a cabeça até as encontrar e trazer para a margem. E o que dizer do pavor que tinha a trovoadas e ao barulho do fogo de artifício? Natural e compreensível.

Nasceu em maio, e foi “baptizada” de Maia em assembleia de família. Ainda me lembro dela na caixa de cartão onde a vimos pela primeira vez, a mais pequena e escura bolinha de pelo,  dormitando entre irmãs e irmãos. Por essa razão, parecia indefesa, a necessitar cuidados, foi a escolhida pelos nossos filhos.  Em 1998, tinham estes 12 e 10 anos de vida, era o momento de cumprirmos a promessa de terem um cão, pois tínhamos mudado de um pequeno apartamento para uma casa com quintal. E foi uma boa ideia, pois o simpático animal deu um contributo relevante para o incremento na maturidade das crianças, com responsabilidades nos cuidados à mais nova da família.

Ninguém a ensinou a abrir porta, e nisso não há grande mistério, pois os cães aprendem por repetição para atingir um objectivo. Até alguns gatos, cavalos e outros animais o fazem. Já não se passa de igual modo no que toca a fechá-las, uma vez que não lhes é útil. Nunca vi ou soube de outro capaz de fazer o mesmo. E foi por brincadeira que um dia, farto de me levantar para fechar o que ela tinha aberto, lhe peguei nas patas da frente, as apoiei do lado de dentro da porta, e dei a instrução: “Fecha a portinha!”. Nos dias seguintes, por brincadeira, repeti a ordem e o movimento umas quantas vezes, sem esperar qualquer resultado, até que ela obedeceu sem ajuda. Uma boa surpresa. Daí em diante, nunca mais se esqueceu da habilidade, e decerto apreciava os elogios à proeza, pois agitava energicamente a cauda e a cabeça.

A Maia era um animal especial, mas não o são todos? 

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