Dos tempos de estudante na universidade tenho muitas memórias, umas boas e outras não tão boas, como seria de esperar. As que mais custaram a engolir estão relacionadas com maus professores, ou com maus modelos de avaliação, ou ainda da conjugação de uns com os outros. Dos primeiros não vale a pena falar, tantos foram eles. Constituíram um exemplo para mim. Foi para não ser como eles que coloquei sempre a prioridade na actividade lectiva, ao longo de quase quatro décadas de academia, com prejuízo daquilo que teria sido melhor para a carreira. Adiante. Avaliações complicadas tive várias, e lembro bem da sensação de ser prejudicado, e não poder fazer nada para o contrariar.
A maioria das orais que fiz durante a licenciatura correram muito bem, e uma delas é digna de registo. Por ter sido a primeira, e por ter ajudado a melhorar muito a autoconfiança. Logo no ano inicial do curso, o primeiro exame escrito que fiz (Epistemologia) não foi satisfatório, e fui chamado à oral. Lá, limitei-me a dizer o que pensava com à vontade, e deram-me quinze. Afinal, não era difícil…
No outro prato da balança estão as provas orais que não se desenrolaram de forma satisfatória, e três casos foram marcantes, cada um à sua maneira, e de consequências diferentes.
O que vou relatar em primeiro lugar é um exemplo de conjugação de um mau professor com uma avaliação decalcada do que de pior se fazia no século 19. O professor RP dava aulas no completo desconhecimento do que é a pedagogia, e não tinha qualquer resquício de respeito pelos alunos, humilhando-os frequentemente, sobretudo se mulheres. A avaliação final iniciava-se por uma parte prática, a qual podia ser completada por uma prova oral, caso a primeira fosse positiva. Na oral, o referido senhor fazia perguntas sobre as respostas dadas na prática, e projetava imagens que os alunos tinham de identificar, justificando, apontando os detalhes com uma varinha de bambu. Tudo isto com uma postura intimidatória, comentários misóginos, insultos… No dia em que fiz a oral, fui um dos últimos, como de costume, devido à ordenação alfabética. Como estava atento, vi que o professor ia tirando os diapositivos da caixa, ao acaso, três ou quatro por cada aluno, mas reparei que separou alguns e fez com eles um montinho. Mal sabia eu para quem estavam destinados… O facto é que, quando chegou a minha vez, ele pegou no montinho, escolheu um deles e projectou-o. Depois disse: “O senhor escreveu aqui que…” Era uma justificação sobre qualquer coisa e eu usei a que vinha no livro recomendado. Ele não concordava com o autor do manual, e apontou para a imagem dizendo algo que supostamente lhe daria razão. “Está no livro…” justifiquei, ao que ele retorquiu “Nem tudo o que vem nos livros…” Depois, projectou outros diapositivos difíceis de identificar, também do montinho separado, mas lá me desenrasquei bem. Ainda implicou comigo por segurar a vara de bambu atrás das costas, pois não era “postura”. Saí de lá com 13, nota baixa para o que eu sabia, mas não vencido.
O segundo exemplo foi numa oral de genética. Neste caso, as professoras eram competentes, mas fui enganado. Tive um exame excelente e, como era padrão na época, apareceu apenas 15 na pauta. Se quisesse mais, tinha de me submeter a uma oral complementar. Colocaram-me um problema, e eu tinha de explicar umas estranhas proporções na descendência. Tinha estudado muito, e nada nas leis que regem a hereditariedade dava explicação para semelhantes valores. Reconheci a ignorância e lá me mostraram a solução. Um alelo mortal, recessivo, fazia desaparecer ¼ dos indivíduos da geração seguinte, baralhando completamente os números. Estavam a avaliar, não o que eu sabia, mas algo que só um investigador experiente poderia saber. Injusto.
O terceiro exemplo negativo aconteceu numa prova com o professor MC, esforçado, faz-tudo, mas mau a dar as aulas. No 4º ano (naquele tempo o curso tinha 5 anos) fizemos um trabalho de ecologia aquática que envolveu amostragens, análise dos dados, escrita de um relatório e a sua discussão numa oral, perante um júri, MC, HG e NV. O trabalho de campo foi apenas exploratório, demonstrativo, não havia condições para ser melhor. Ainda assim, quisemos explorar os dados com apoio da estatística. O problema com que nos deparámos foi encontrar um teste comparativo que funcionasse com tão poucos valores. Depois de muito procurar, encontrámos um que dizia ser apropriado para comparar duas amostras com menos de x dados, precisamente aquilo que tínhamos em mãos. Na discussão, o nosso relatório foi elogiado e só tinha um problema. Segundo a própria orientadora do trabalho e membro do júri, “… o método estatístico usado não está adequado.” Durante a elaboração do trabalho não se lhe ocorreu mencionar o assunto, e só no dia da prova disse “… e preparem-se para a discussão sobre a estatística”. Acontece que nenhum dos membros do júri percebia desta metodologia. Argumentei, expliquei, e até tirei uma folha da pasta, mas nenhum deles se dignou olhar para a fotocópia da página do livro onde tudo estava explicado. A nota final foi elevada, e justificou o professor, também “… por “defender a causa com convicção.” Foi uma conjugação de maus professores, de má avaliação, e fomos claramente enganados, felizmente sem grandes consequências, mas a nota deveria ter sido melhor.
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