TRINITÁ

Camacupa, anos 70, era eu um adolescente imberbe e de guedelhas azeitadas pelos ombros. Nesse tempo, íamos com frequência ao clube principal da vila, pois o cinema era barato e constituía diversão quase sempre certa. A sala era minimalista, as cadeiras eram feitas de tábuas lisas, de madeira, tal como o chão cá mais para trás, na segunda plateia que era ainda mais em conta. Sim, os assentos eram bastante desconfortáveis, em comparação aos padrões de hoje. Na época, contudo, parecia não ter importância, pelo menos para a rapaziada. 

“Trinitá, o cóbói insolente”, também chegou lá à terra, e este filme vinha precedido de recomendação, era “diversão garantida”. Mesmo sem as actuais redes sociais de base electrónica e instantânea, a informação passava de boca em boca. Na primeira sessão, a afluência foi grande. O enredo boçal, apalhaçado e quebra-costas, fez o delírio da multidão. E surgiram novamente as reais pateadas, com intensidade redobrada face ao habitual. O pessoal, extasiado, batia com os pés no soalho e nas costas das cadeiras à sua frente, num “concerto” de fazer inveja às trovoadas. E acompanhava a manifestação com abundantes comentários brejeiros em voz alta. “Dá-lhe mais !” “Parte-lhe os  cornos!” 

Ao ver na actualidade uma das muitas cópias disponíveis na internet, versões italianas ou americanas, esboço um sorriso amarelo. Não foi bem isto que vi no passado… A memória prega-nos muitas partidas, e esta foi mais uma. Como foi possível gostar de ver tamanha porcaria? Suponho que fosse pelo novo conceito de filme sobre o Oeste Americano, fugindo aos estereótipos muito batidos, quer aos simplistas quer aos intelectuais. 

Seja como for, o Trinitá divertiu-me a valer, tal como a tantos outros e, por essa razão, incorporou a memória colectiva de uma geração.

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