Foquei o microscópio e a imagem apareceu nitidamente. Observei com um olho e controlei os movimentos da professora com o outro. Depois, chamei o H. que estava na mesa ao lado. ”Queres espreitar?” A cara de surpresa que ele fez foi impagável, e perguntou “São mesmo?” Eram mesmo.
Para bom entendimento, será melhor contar a história desde o seu início. Das aulas na faculdade às oito da manhã pouco há a dizer, excepto que eram incómodas, principalmente aos sábados. Um dia, a aula foi emocionante. Cheguei com algum atraso, mas a professora L. tinha separado as preparações que os colegas já tinham observado e colocou-as na minha mesa, despertando inveja em alguns deles… Prerrogativa de aluno atento e com boas notas. Adiante.
Naquele dia, contudo, despachei-me rapidamente com a matéria da aula. Vi e fiz um breve resumo no meu bloco de apontamentos, tanto das preparações fixas como das feitas no momento, pois estava mortinho por observar o material fresco que tinha trazido de casa. Logo que me foi possível, tirei do bolso um pedaço de papel absorvente dobrado e desfiz o embrulho. No interior estava outro pedaço de papel absorvente, de onde raspei uma espécie de película branca, e coloquei um pedacinho na lâmina de vidro. Uma gota de água, uma lamela a cobrir tudo e ficou tudo pronto para observar.
E agora já podemos regressar ao início desta memória. Quando foquei o microscópio, a imagem que apareceu nitidamente foi a de um emaranhado de feixes, um novelo de forma conhecida dos livros. O colega H. perguntou de seguida, olhando por cima do ombro, controlando também para onde a professora dirigia a sua atenção: “Como é que arranjaste o material?” Respondi com a verdade: “Hoje tive um sonho, e depois tive curiosidade.” Para quem ainda não percebeu, o que estávamos a observar eram espermatozóides…
Ao ver a nossa divertida conversa, a professora ainda perguntou, levantando-se solícita: “Alguma dúvida?” “Não!” apressei-me a responder. E, enquanto tirava do microscópio a preparação clandestina, antes que ela se aproximasse, completei com a expressão o mais inocente que me foi possível fazer: “Só estávamos a comentar que se vê muito bem…” E via!