CAMINHO DE SANTIAGO

No adro da igreja de São Pedro de Rubiães, a pequena cobra ondulou sobre as lajes ainda mornas do sol de verão. A pouca luz do início da noite tornou-nos meras sombras coladas ao arco românico da porta, e ela quase me veio ter à mão. 

Peguei nela com cuidado, e não fez qualquer esforço para se libertar. Com a luz da lanterna, todos puderam observar e tocar na pele sedosa da inesperada visitante, antes de a colocar no chão. Assim como chegou, assim se afastou, lentamente, até desaparecer na escuridão.

O grupo de cinco vultos continuou a cavaqueira, trocando memórias e saberes, depois de um dia cansativo a recolher informação num troço pouco conhecido do antigo percurso de peregrinos a Compostela. 

De acordo com o padre A., o mais percorrido caminho português em direcção ao túmulo do Apóstolo Tiago Maior foi, e ainda é, o percurso que passa por Lisboa, Coimbra, Porto, e atravessa em Valença a fronteira com o país vizinho. Rubiães, onde estávamos, é perto de Paredes de Coura. Fica a menos de vinte quilómetros da travessia do rio Minho em direcção ao santuário galego que há mais de mil anos atrai crentes e curiosos, comerciantes e ladrões, reis e lázaros…

O padre A. sabia o que dizia. Ao longo dos anos, reunira informações sobre o assunto, lidas em milhares de documentos na Torre do Tombo,  nas igrejas e em bibliotecas municipais. Conhecia ou tinha mapas dos caminhos romanos e medievais, a data de construção das pontes e capelas dedicadas ao santo, a localização dos barqueiros, albergues e estalagens, e até onde tinham ocorrido  acidentes e assaltos a peregrinos. 

Por essa razão, fazia parte de um grupo multidisciplinar que tinha como objectivo escrever um livro sobre os caminhos portugueses de Santiago. Um livro no presente, mostrando os percursos antigos e novos, o património construído a eles associado, informações sobre a história e a cultura, mas também mencionando aos caminhantes actuais outros pontos de interesse localizados ao longo dos caminhos. Numa perspetiva de que todos os tipos de património são relevantes, o livro deveria mencionar monumentos mais recentes, miradouros dedicados a paisagens dignas de ver, árvores monumentais, bosques importantes e os animais que neles habitam, e também os peixes dos rios atravessados. Assim, o padre A. tinha reunido um pequeno grupo de colaboradores de diversas especialidades, para recolher a informação e escrever alguns dos textos que iriam juntar-se às fotografias que outra equipa andava a fazer. Por sugestão do amigo R., tive a sorte de ser convidado a juntar-me ao grupo, aquele cujas sombras iniciam esta memória. O  livro(1) foi lançado em 1995 e os meus textos sobre lobos e trutas, entre outros, lá entraram.

Acompanhei o padre A. nessa saída a Rubiães, com o grupo, e também fizemos só os dois alguns troços dos caminhos. Pude apreciar a sua sabedoria, bom senso e independência nas opiniões, mesmo em assuntos religiosos. Dessas saídas, destaco o seu relacionamento com as pessoas, gerador de empatia imediata, sendo bem recebido em todo o lado. Lembro bem uma das vezes em que fomos ter a uma pequena quinta na margem do Lima, por onde tinha passado anos antes. Imediatamente fomos convidados a almoçar, genuinamente, e os donos partilharam com os visitantes a refeição familiar, o vinho da casa e uma conversa  igualmente saborosa.

 Nota:

1 – Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago. Itinerários Portugueses. Ed. Xunta de Galicia, Galicia-Norte de Portugal Comunidade de Trabalho, Centro regional de Artes Tradicionais, Comissão de Coordenação da Região do Norte. 1995.

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