O N. limpava os óculos repetidamente, mas continuava sem ver bem. A causa do embaciamento não estava nas lentes, mas sim na cerveja.
Em dia de festa na vila, ainda havia luz quando o grupo de amigos se reuniu à conversa no bar mais moderno que havia, e a mesa encheu-se gradualmente de copos vazios, de cascas de de tremoços e de cascas de ginguba. Todos fomos pagando as rodadas, cada um na sua vez, e perdi a conta aos finos. O mais velho ainda nos perguntou, a mim e a outro, os mais novos do grupo, se tínhamos idade para beber. Espigadote, não dei parte de fraco, como típico dos adolescentes em busca de afirmação. Acabamos a conversa, já o céu estava escuro, pois estava na hora de um evento qualquer.
Não fomos longe. Sendo certo que a Cuca era levezinha, como convém em terras de calor, a quantidade fez a diferença. Consequentemente, um dos convivas sentiu-se mal e ancorou no primeiro pouso que encontrou, fechando os olhos. Não era nada de grave, mas não íamos abandonar o adormecido. Como ninguém queria perder o resto dos festejos, uma solução fazia falta.
Foi aí que o N., continuando a limpar os óculos já limpos, deu a sugestão para o problema: poderia ir à farmácia buscar um pouco de amoníaco. A proposta foi imediatamente aprovada, tanto mais que vinha com respaldo técnico da família. Acompanhei-o na missão, e não tardámos mais de vinte minutos até nos juntarmos ao grupo. Destapado o pequeno frasco, o N. passou-o junto ao nariz da vítima. Nada. Então, um dos mais impacientes pegou no frasco e espetou-o nas narinas da “bela adormecida”. Ao contrário da princesa da historinha, que acordou suavemente com um beijo, o nosso amigo acordou violentamente, como se tivesse apanhado um coice. A cara dele mostrava uma expressão de surpresa e incompreensão. Impagável.
O que se passou depois já se me varreu quase tudo, mas lembro-me que o N., continuou a limpar os óculos.