O MEL DE ROMA

Quando ouvi os estilhaços de vidro no chão, senti-me dentro da metáfora do elefante. Não era uma loja de porcelanas, mas tinha algumas, e vendia artigos turísticos. A italiana que estava ao balcão tirou os olhos da revista de celebridades e acercou-se rapidamente, mostrando cara de enfado, e com razão.   

Ao analisar o sucedido, a resposta era óbvia. Um dos bolsos salientes da mochila, que oscilara mais do que devia no estreito espaço do corredor, tinha tocado ligeiramente num dos frascos em exposição na prateleira. E foi o suficiente para nos meter em trabalhos. “Paguem o prejuízo” foi o veredicto da senhora, que já se via a sujar as unhas na limpeza. Pagámos e saímos, sem comprar o que queríamos.

A cena passou-se na capital italiana, a penúltima cidade visitada no nosso circuito europeu, antes do longo regresso a casa, sem mais paragens. Foram as férias do Interrail, já referidas noutra memória (ver Europa), a primeira das grandes e memoráveis viagens que fizemos pelo planeta, a sós, com os filhos, ou com amigos.

O tempo disponível estava no fim, e da cidade pouco vimos, pois Florença aguardava-nos com mais curiosidade. O Coliseu, obra monumental dos antigos, foi um ponto obrigatório, entre outros. Os museus eram caros e o orçamento estava excedido. Por isso, foi muito trajecto a pé, ao longo de avenidas ladeadas de ruínas de mármore prostrado e ciprestes, cansativo, sob um ambiente desagradável. Estava frio, e as nuvens cinzentas estragaram as fotografias. Por alguma razão, era dia de ambulâncias e as sirenes em modo contínuo ajudaram ao desconforto. Sempre que se fala de Roma, é essa cacofonia que me vem à memória.

Florença, pelo contrário, superou as expectativas. Monumentos, museus com entrada gratuita e bom tempo, fizeram toda a diferença.  Foi uma excelente escolha para terminar as nossas férias, a última cidade do circuito europeu, o qual nos educou e divertiu durante um mês. No último dia, ao final da tarde, chegámos à estação. Escolhemos o destino, demos a caderneta para carimbar, perguntámos qual era a plataforma, e entrámos no comboio. Poucos minutos depois, começou a viagem. 

Como o dia ainda não tinha terminado, outra surpresa nos aguardava. E não era boa. Passado algum tempo, a paisagem mudou de subúrbios incaracterísticos para campos agrícolas, e o comboio acercou-se do mar. Durante alguns minutos, apreciei o sol velado, reflectindo-se nas águas calmas. Mas alguma coisa não batia certo, e demorei algum tempo para transformar a sensação de estranheza em algo objectivo: então, se vamos para norte, em direcção a França, o mar tinha de estar a poente, do lado esquerdo! E estava à direita, íamos para sul. Desfeitas as dúvidas com o revisor, entretanto aparecido, esclareceu que não tínhamos escolhido a carruagem certa, e que a nossa tinha sido atrelada a outra máquina na estação anterior… Saímos em Livorno e apanhámos o comboio para França, o certo. Retomada a viagem, as últimas luzes do dia deixaram ver outra surpresa, desta vez boa: a torta Torre de Pisa, a derradeira imagem dessa viagem que perdura na cabeça.

Para fechar, voltemos à loja na capital, a que motivou esta elefantina memória. Nunca cheguei a avaliar a que sabia o mel de Roma, pois ficou colado ao chão. A julgar pelo preço do frasco, deveria ser uma especialidade…

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