SACO DE BARRIGA ABERTA

O raio de luz entrava pela porta e condensava os grãos de fina poeira num feixe oblíquo, quase sólido. A mãe, sentada na sombra com o grande saco de pano às riscas azuis no colo, repetia o gesto uma e outra vez. Mostrava o jeitinho de já ter feito muitas vezes a tarefa. Ao sol, apenas as mãos, a agulha, a linha e o dedal, fechando a barriga do saco.

Pouco tempo antes, ela tinha estado no quintal a encher o saco, comigo a ajudar, mão após mão. Usámos um material vegetal amarelado, barulhento e áspero de tão seco que estava, tendo o cuidado de rejeitar algum pedúnculo que estivesse agarrado. Era um recurso tão abundante na época da colheita que nem tinha preço. Era palha de maçaroca, e o saco era o meu colchão.

A palha de maçaroca não é mais do que o conjunto de  “folhas” que envolvem as espigas de milho, também popularmente chamado de “camisa”, e que se designam tecnicamente brácteas. Hoje, este material é usado em rações para animais, ou para fertilizante orgânico, e também em artesanato, continuando tradições antigas, mas já não se usa em colchões. Pouco tempo depois, um ou dois anos, tive direito a um de espuma. 

Deixe um comentário