OS PÉS DESCALÇOS

Os pés de quem andou descalço toda a vida são diferentes. Vi deles um número suficientemente elevado para não mais me esquecer. Os dos jovens e das crianças ainda não calcorrearam suficientes caminhos para que se note, são mais ou menos perfeitos, como vieram ao mundo. Já os pés dos velhos contam outra história, e não são coisa bonita de se ver. Por mais variantes que possam existir, os traços comuns incluem calosidades robustas sulcadas por fundas rachadelas, cicatrizes abundantes, deformações por artroses, e marcas de parasitoses. 

Sim, em África há parasitas muito estranhos. Sei-o por experiência própria. Andei descalço bastante vezes durante a meninice, e não apenas na praia, como ainda hoje acontece com quase todos. O quintal de nossa casa era seguro e a rua também, pelo que chapinhei muitas vezes na lama da valeta, fazendo diques e navegando com barquinhos de papel. Mesmo assim, não me livrei de umas quantas bitacaias ou matacanhas a crescer nos dedos. A mãe, com toda a paciência e perícia, mal eu me queixava de comichão, fazia a necessária inspecção. Depois, pegava numa agulha, perfurava a pele com cuidado e retirava os hóspedes indesejados antes que fizessem estragos.

Para quem não conhece, este parasita tropical é um insecto da família das pulgas e tem um ciclo de vida muito estranho. A fêmea adulta está no solo, e perfura a pele de um pé descalço ao seu alcance. Em seguida, enquanto se alimenta de sangue, escava um orifício e fica meio dentro e meio fora dele, para continuar a respirar. Na cavidade que abriu, forma-se um saco com cerca de um centímetro de diâmetro, onde deposita os ovos. Destes nascem pequenas larvas, as quais se libertam para o solo quando chega o momento certo. O nome científico desta pestinha é Tunga penetrans, e é autoexplicativo: quando menos se espera, tunga! E depois penetra.

O contacto continuado com este parasita, sobretudo em pés pouco sensíveis por andarem sempre descalços, provoca deformação progressiva e ainda frequentes infecções por outros organismos oportunistas. Como disse acima, não é bonito de ver. 

Como será fácil de entender, os pés descalços são comuns em  grupos populacionais de grande pobreza. Daí decorre que é neles que os problemas acima mencionados ocorrem com maior frequência. Estão também associados a pessoas isoladas, miseráveis sem família ou esquecidos da sociedade, e que não cuidam de si próprios. Vi-os em Angola, durante o tempo em que lá vivi, e também no Quénia, em Madagascar, em Moçambique… Não os vi no Brasil, pois falhei o contacto com as pessoas com essas características. Pelo que li, a incidência neste país é muito elevada, assim como nas Caraíbas.

Podemos perguntar como foi possível que uma pulga originária do Novo Mundo atravessasse os oceanos.   A resposta vem nos livros: a propagação do ectoparasita para a África terá sido desencadeada em 1872, quando um navio, tendo partido do Brasil, despejou o lastro de areia em Angola. Temos aqui mais um exemplo das consequências de uma espécie invasora.

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