O CAMINHO DAS PEDRAS  

Pedra após pedra, o caminho ligeiramente sinuoso foi crescendo à maneira das poldras, mas foi necessário um ano até ficar completo, mais coisa menos coisa, e permitir passagem seca. Contudo, não ficava em zona rural, nem em curso de água, atravessava o relvado do nosso quintal. 

Umas de perto, outras de longe, de granito ou de xisto, todas as pedras tinham uma história e, durante algum tempo, lembrava-me de todas elas. Pedregulho com face plana que estivesse perdido na berma do trilho ou da estrada, ganhava guia de marcha para casa. Muitas foram encontradas em passeios de todo-o-terreno e em saídas de fim de semana para acampar, ou para pic-nics.

Se umas eram pequenas e leves, outras pesavam dezenas de quilogramas, dificultando a carga, a descarga, e finalmente a transferência para a cova que seria a sua cama. Muitas vezes, foi  necessário rolar cada bloco por uma improvisada rampa, feita de tábuas. Todos ajudavam, mãe e filhos, mais protesto menos protesto, de outro modo não teria sido possível. 

Escolhida a posição de cada uma, seguia-se a tarefa de fazer a escavação à medida da pedra, depois de desenhado o respectivo contorno. Retirava a terra com cuidado para não afundar demasiado a cova, e procurava espelhar o relevo da face da pedra que ficava virada para baixo. Colocava e removia a pedra, e remodelava o buraco quantas vezes fosse necessário até obter o posicionamento perfeito: face superior horizontal, e cerca de dois dedos acima do solo. Dito assim, até parece fácil, mas devo dizer que algumas foram um desafio difícil, apenas resolvido com alavancas e várias mãos.

No início, as pedras estavam mais afastadas, à distância de uma passada, e era incómodo percorrer o caminho. Continuada a recolha de mais peças para o puzzle, e com a relocalização de algumas mais antigas, aproximando-as, a cobra de pedra tomou o formato final, que se manteria durante vários anos.

Obra da família, o nosso quintal foi melhorando pouco a pouco, não só o caminho das pedras mas também a sebe de azevinhos, loureiros e azereiros, a horta que deu favas, cebolas, tomates e demais hortaliças, o primeiro toldo, a iluminação. 

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