A FACA DO BACALHAU

O homem pegou no queijinho, bateu com ele no balcão e fez um sorriso maroto, acentuando o som, parecia feito por uma pedra. Depois, dirigiu-se para a extremidade da bancada, levantou a faca do bacalhau, passou-lhe um pano e zás, guilhotinou repetidamente o pequeno queijo. Dispôs as resultantes tirinhas amareladas numa fatia de pão escuro, cobriu com outra, e passou-me a sandes com mais um sorriso, simpático.

“Caseiro ou deste?” tinha ele perguntado antes, apontando para a bola do flamengo de casca vermelha. Caseiro se faz favor, respondi sem hesitação. Quando pedi uma sandes de queijo, a mais barata da lista escrita a giz na lousa pendurada na parede, estava longe de imaginar que o episódio ficaria décadas na minha memória.  

A caminho do Algarve, talvez no verão de 1977 ou de 78, seguia no velho autocarro da Rodoviária Nacional, carreira regular que servia todas as terras, grandes e pequenas, numa viagem interminável. Para a pausa do motorista, tivemos uma paragem mais demorada, algures no Alentejo, numa vila pacata de casinhas caiadas de branco e com alegres barras azuis ou amarelas, destacando portas e janelas. Nas ruas, o perfume das laranjeiras em flor foi uma agradável surpresa.

Era hora de almoço, a fome apertava, e entrei na tasca escura, que era também mercearia. O bolso ia leve e, por isso, tinha pedido o que  tinha pedido. Não me arrependi, pois o pão era delicioso e o queijo era de um sabor intenso como nunca tinha provado. E do aroma nem se fala. Reconfortante, e pleno de energia para o que faltava da viagem.

A memória não fica completa sem regressar à faca de cortar bacalhau. Para quem nunca viu, será acertado explicar o que era este instrumento, antigamente presente em todas as mercearias. Era uma faca bem grande, com uma dobradiça na ponta que a ligava a uma base metálica. Esta, fixa ao balcão, tinha uma fenda onde cabia a lâmina, à justa, quando baixada. Esta configuração permitia usar a faca como guilhotina, dirigindo a força exercida no cabo para a zona de corte, como uma alavanca. Muito eficaz.

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