BANHEIRA DE URSO

A subida pela encosta da serra tinha começado suavemente, na ruela estreita entre casas de pedra e grandes espigueiros quadrangulares de madeira escura. Mais adiante, o caminho cimentado da aldeia deu lugar a um empedrado já muito polido, ladeado por muros antigos e musgosos e coberto por um espectacular dossel arbóreo de padreiros, já amarelados. Cruzado o ribeiro por cima de calhaus escorregadios, tinha início o caminho das vacas. Fugindo às bostas, avançámos pelo trilho enlameado, agora sem árvores, mas ainda com muros toscos e vedações de silvas, urzes e borrazeiras, delimitando os verdes e cuidados pastos junto ao ribeiro. A seguir, o declive aumentou, acabaram as pastagens humanizadas e o caminho subiu pela encosta. Curvas e contracurvas e piso irregular, até chegarmos à escorrência de água num pequeno barranco parcialmente coberto de limo, e lá estavam elas, tal como no ano anterior. Pequenas plantas de folhas enroladas e peganhentas. Observando com atenção, vimos minúsculos insectos colados nas folhas, contribuindo involuntariamente para a sobrevivência das simpáticas carnívoras (Pinguicula grandiflora).

Mais adiante o trilho do gado subiu mais, perdendo definição, e subdividindo-se em múltiplas opções, resultado da dispersão bovina pela serra, cada animal procurando os melhores rebentos. A nossa subida tornou-se difícil e progredimos zag após zig, zig após zag, pois o declive do terreno era bastante elevado.

Parámos de tempos a tempos para recuperar o fôlego, aproveitando cada pausa para observar o vale, parecia que estava a encolher lá no fundo. Depois olhámos para a encosta oposta àquela onde estávamos, e para os horizontes a sul, que se iam alargando à medida que ficávamos mais e mais acima. 

Finalmente chegados à crista da encosta,  a pouco mais de mil metros de altitude, a paisagem para nordeste abriu-se. Ficaram visíveis outros vales e cumeadas calcárias que se sucediam, até a paisagem se desfazer em tons de cinza. Uns minutos a recuperar as pernas permitiram observar a toda a volta. Faiedos extensos dominavam a meia encosta. Apresentavam-se já vestidos para o outono, atapetando os declives em cores mais ou menos vermelhas e alaranjadas, ou ainda em nuances entre o verde-claro e o amarelo. Lindíssimo, nem apetecia continuar.

O caminho ao longo da crista seguia quase horizontalmente, sem necessidade de mais esforço, e escolhemos o sentido nascente, em direcção ao bosque mais próximo. Percorremos mais algumas centenas de metros até entrarmos na penumbra das faias, o solo fofo atapetado das folhas caídas, um conjunto complexo de aromas, húmus, madeira, cogumelos, bolor…

Mais umas dezenas de passos e demos com a cova. Tinha cerca de dois metros de diâmetro, e uns dedos de água da chuva no fundo. Esta, misturada com o solo escavado, formava uma lama acinzentada onde o urso se tinha espolinhado horas antes. As  superfícies alisadas formadas pelo esfregar do seu dorso estavam muito nítidas, e as suas pegadas eram bem visíveis, inconfundíveis, dentro e fora da banheira comunitária. Sim, a cova de lama servia também outros animais do bosque. Parcialmente pisadas pelo urso, marcas de veados e javalis, entre outros, eram ainda reconhecíveis.

Pegada do urso e a minha bota para escala. Fotografia Paulo Santos

As árvores em volta tinham o tronco fortemente pintado do barro, em resultado do comportamento desparasitante daqueles grandes mamíferos. A seguir ao banho na cova, esfregam-se em superfícies rugosas, como rochas e troncos, para se coçarem energicamente, retirando o excesso de lama e, com ela, uma boa parte dos parasitas cutâneos. Que alívio!

Foi o momento alto daquela caminhada de montanha, com cenários coloridos de outono, velhas faias retorcidas, sinais da fauna abundante, o avistamento fugaz de uma manada de cervídeos, a presença contínua de grifos e de outras aves,  e uma sensação de plenitude. Devo também referir a degustação do saboroso farnel, um prazer clássico nas saídas para a Natureza. Bom pão, ventresca, azeitonas, enchidos, presunto e pinga a condizer, e fruta. Para finalizar, como tantas outras vezes, café feito no momento e uma pinga de bom digestivo, um luxo! E os luxos pagam-se, pois carregar o seu peso às costas, serra acima, não é tarefa leve, adjetivo adequado ao caso.

Para a memória ficar completa, falta recordar o aspecto negativo da jornada, e que se repetiu de quase todas as vezes que percorremos aquelas serranias pelo trilho que começa em Aguiño, no Parque Natural de Somiedo. Vim de lá carregado de companhias indesejáveis: carraças!

A banheira do urso. Fotografia Paulo Santos

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