MAGIRUS

Seria ilusão derivada do conhecimento dos factos? O horizonte dava a sensação de se curvar ligeiramente, mas não tive a calma suficiente para fazer a verificação, porque o suporte onde eu estava empoleirado oscilava demais para que me sentisse minimamente confortável. Dei uma rápida vista de olhos à paisagem da ria, com planos de água cercados por campos verdes, salpicados pelo alaranjado dos telhados e cruzados por caminhos e estradas. Depois, concentrei-me na minha missão. Não era uma tarefa simples, principalmente por não ter qualquer ajuda para colocar o grande e pesado ninho para cegonhas no topo da chaminé. Sem ajuda e encavalitado no alto de uma escada Magirus, aquelas que equipam os bons carros de bombeiros. 

Será melhor explicar agora como me meti em tal sarilho. No dia anterior, tínhamos recebido na associação um telefonema de um morador na Gafanha da Encarnação, que nos conhecia dos jornais ou da televisão, e sabia do trabalho por nós desenvolvido em defesa da vida selvagem. Mostrou-se preocupado, pois tinha visto cegonhas que tentavam nidificar na chaminé da torrefação de café  abandonada, mas os ramos não se aguentavam no topo e caíam um após outro. Perguntou-nos se poderíamos ajudar.

No início dos anos 90 havia poucas cegonhas no país, e concentravam-se mais a sul. Na associação FAPAS, estávamos a fazer uma campanha nacional de ajuda à sua nidificação,  apoiada por um grande investimento na comunicação. Promovíamos a construção e colocação de ninhos por escolas e por colectividades, e tentávamos mudar mentalidades com uma mensagem simples: era mesmo possível ajudar a Natureza. Por isso, durante vários anos, tínhamos sempre de reserva alguns ninhos para acudir a situações especiais, como pedidos de Áreas Protegidas. 

Cada ninho é uma estrutura circular com cerca de metro e meio de diâmetro, feito com uma base robusta em ferro e rede metálica, onde se entrelaçam várias camadas de ramos. Usávamos podas de vinhas, um recurso abundante. Se fazê-los era fácil, colocá-los em posição adequada podia ser complexo. Em árvores ou em telhados podia ser simples, mas em chaminés não o era. Havia necessidade de uma boa escada, e bem grande. Era o caso desta memória.

O amigo S tratou logo de pedir ajuda aos bombeiros de Aveiro. Acederam ao solicitado com curiosidade, e a hora foi marcada. No dia seguinte encontrámo-nos junto à chaminé, eles com a escada Magirus* e nós com o ninho. Ainda com a escada em baixo, prendeu-se o ninho num gancho do último degrau, bem como um rolo de arame grosso. Depois, ficámos a olhar uns para os outros… 

Finalmente fomos esclarecidos: os bombeiros não queriam subir com o ninho, a ajuda era só com o equipamento. Perante o impasse, e para não cancelar a operação, enchi-me de coragem e assumi a tarefa. Depois de receber breves  indicações de segurança, subi para a escada e esperei quietinho, bem agarrado, enquanto os profissionais endireitavam e esticavam a magirus. Lá em cima, tive algum medo, a escada oscilava, e não era pouco. Lá em baixo, as pessoas pareciam pequeninas. O vento de inverno cortava nas orelhas, mas virei-me ao trabalho. Ao fim de algum tempo, o ninho ficou bem amarrado com arame forte no rebordo do topo, parecia ter sido feito por medida.

No dia seguinte, recebemos telefonema recompensador: “a cegonha está deitada no ninho”. 

*Nota: Em latim, magirus significa cozinheiro, e é um mistério para mim a razão que levou ao baptismo da escada com tal designação.

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