AMÊIJOAS, FIGOS E GRADES

O que amêijoas gordas, figos maduros e grades de cerveja têm em comum? Aparentemente nada, mas, nas minhas memórias têm tudo. São protagonistas de uma semana de aventuras interligadas, para lá do limite razoável. No momento, não levantaram questões éticas mais fortes do que o sentido de pertença ao grupo de jovens, levemente irresponsáveis, e é como tal que eu espero sejam interpretadas.

Portimão, verão de 1977, talvez… Fui passar uma semana de férias em casa de uns primos que lá moravam, e que não digo quem eram para não os embaraçar.  Rapidamente se formou um trio de companheiros, num tempo em que o que nos interessava, ou como se ocupavam as horas livres, era muito distinto dos padrões actuais, dominados pela tecnologia. Andava-se muito a pé, e íamos desse modo à Praia da Rocha e a todo o lado. Ouvia-se música em grupo, e nessas férias, o “Frampton Comes Alive!” não dava folga ao gira-discos. E jogar às cartas também fazia parte do programa.

Estou a desviar-me do motivo desta memória e por essa razão será melhor regressar ao assunto.

Primeiro os figos, a parte mais suave. A caminho da praia, do lado direito da estrada, havia vários terrenos com figueiras. Tinham dono, claro, mas esse detalhe não nos impediu de colher os figos maduros, para os comer no momento, ou na praia, ou mesmo levar para casa. Por palavras adultas, um furto menor.

Queríamos ir ao cinema, mas o dinheiro não era suficiente para todos. E é aqui que entra o segundo elemento da trilogia. “Só se formos devolver uma grade e levantar o dinheiro do vasilhame.”  Parecia boa ideia, mas não tínhamos nenhuma. “Não faz mal, vamos lá buscar uma antes da abertura.” Explicaram-me que aquele café não guardava bem as grades com garrafas vazias, não seria a primeira vez que usavam o método. E assim aconteceu. Quem vai buscar o carcanhol? Fui excluído porque não falava algarvio, um dos outros pegou no material e avançou loja adentro. O meu pai manda devolver a grade… “Quem é o teu pai?” O Manel dali adiante, a caminho do Alvor… Nome seguro, Manéis havia muitos. “Tá bem, arruma nas traseiras”. E a grade regressou ao ponto de partida. Repetimos a cena no final da semana, mas o homem olhou de lado alguns segundos antes de pagar, e decidimos não arriscar mais. 

Deixei para o final as amêijoas. Fomos apanhá-las ao estuário, durante a maré baixa, cerca de dois quilogramas de gordos bivalves, e depois fomos vender a safra a um restaurante na berma da estrada. Recebemos bom pagamento. “Estas são mesmo de boa qualidade, de onde são?” Não revelámos o nosso segredo: perto do esgoto estão as mais gordas.

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