O meu pai deu-me a chave de casa aos doze anos. Fiquei inchado de orgulho, pois nenhum dos meus colegas tinha direito a tal privilégio.
Era para andar com ela no bolso, para entrar no regresso do liceu, hora a que não havia ninguém para me abrir a porta. Talvez um ano depois, tive autorização de a usar se quisesse chegar a casa um pouco mais tarde, e os adultos estivessem já a descansar.
A oportunidade surgiu algum tempo depois, por ocasião das festas da vila. Anualmente, como é costume nas terras pequenas, as colectividades competiam na organização de um conjunto de eventos variados. Provas desportivas, bailes, sorteios, feirinhas, concursos disto e daquilo, enfim, dava para todos os gostos e era uma quebra nas rotinas das famílias. Durante vários dias andava meia vila fora de casa, e faziam-se serões até noite avançada. Esta memória data precisamente de uma dessas noites, e tinha recebido luz verde para chegar ao ninho depois dos adultos. Aproveitei, claro.
A dada altura, a festa terminou. Era tarde e regressei a casa, chave no bolso pronta a usar, naquela que era a primeira saída nocturna sem hora marcada. Havia, contudo, uma surpresa que aguardava pela minha vaidosice.
Não foi agradável tal surpresa, estava outra chave do lado de dentro da fechadura, de modelo antigo, e a minha não entrava. No dia seguinte vim a saber que a mamã, como era habitual, tinha trancado tudo, sem se lembrar que eu estava fora… Ainda tentei escarafunchar com a minha, esperando que a outra caísse da fechadura, mas não tive sorte nenhuma.
Não querendo acordar ninguém, mantive o silêncio. Cansado e sonolento, sentei-me no degrau da entrada, disposto a esperar pelo sol. Mas não esperei muito, e decidi por outra solução. Dei a volta à casa e saltei o muro do quintal. Com um suave encontrão, abri o frágil trinco da porta do quartinho de arrumos que ficava anexo à habitação, e que era usado como despensa. O espaço não era grande, mas lá me acomodei. Sentei-me primeiro, mas depressa me deitei no chão. O frio levantou-me. Mais uma vez, procurei uma alternativa, e ela estava mesmo ali. Estendi-o no chão e achatei-o o melhor que pude. Dormi em cima do grande saco de batatas.