O CANIVETE MÁGICO

O estalajadeiro (até hoje nunca tinha usado esta palavra) era aldrabão. Em consequência, viu-se aliviado de um presunto. Não é brincadeira, foi o merecido castigo. Eu só soube mais tarde, quando o galhofeiro finalista Z levantou a capa negra de estudante e desvendou o quarto traseiro porcino, como num gesto de magia. Perante as muitas interrogações de quem o rodeou, o “mágico” lá  explicou o mistério. Ele tinha acertado previamente no restaurante, tanto o menu como o preço a pagar pelo jantar de final do ano lectivo. No dia combinado, o jantar foi divertido, tanto para os alunos como para mim e restantes professores que tinham sido convidados, mas o vinho servido foi outro e a conta foi maior, e de nada adiantou protestar. Ao sair, o zangado Z viu o presunto inteiro mesmo à mão e, num impulso, escondeu o dito na capa e saiu calmamente do restaurante.

“E agora, que fazemos com ele?” A resposta óbvia surgiu de várias bocas: “Vamos comê-lo, e já!” Fácil de dizer, mas não de concretização imediata. “Onde vamos desencantar uma faca?” Falta agora enquadrar a cena. Meia hora após o termo confuso do jantar, a vintena de actrizes e actores encontrava-se reunida na Foz do Douro, perto do molhe do farol, e batia a meia noite. Sim, era necessário mais do que magia para repartir o petisco pelos candidatos. 

Foi no meio do desalento geral que me lembrei da solução: eu tinha um canivete! Em boa verdade, era uma amostra de canivete que trazia sempre comigo, tão pequeno que o guardava no porta-moedas tipo concha. E foi a solução para o problema. Comecei a cortar, a comer e a distribuir, e depois o instrumento foi mudando de mãos até que o pessoal se enfastiou. Sem bebida para equilibrar o presunto salgado, só se comeu metade.  

Talvez tenha sido o momento alto da minúscula lâmina mas, ao longo dos anos, serviu para muitas outras coisas. Desde a tarefa óbvia de descascar fruta ou cortar fios e cordas, até operações urgentes e delicadas como apertar os parafusos em hastes caídas de óculos, foi chamada ao trabalho frequentes vezes. 

O facto de ser pequena, dava uma quase invisibilidade à minha “arma branca”. Um dia, esquecida no porta-moedas, passou sem ser detectada na máquina de raios X de um aeroporto qualquer.  A partir daí, deixei de guardar o canivete na mala de porão, e cheguei mesmo a usá-lo durante algum voo. Nunca foi detectado.

E assim termina esta memória em que nem há um verdadeiro estalajadeiro, nem um verdadeiro mágico, mas em que a magia esteve no pequeno canivete que me acompanhava para todo o lado.

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