JÁ VIU A SUA MÃO?

“Já viu a sua mão?” Foi o que a seca pessoa de bata branca me perguntou. Pegou-me na mão, virou-a e revirou-a, e em seguida disse-me para juntar as mãos, apoiando as palmas no tampo da sua mesa. Só então, vendo-as bem lado a lado, me dei conta da diferença. “Há quanto tempo está assim?” A brusca interpelação apanhou-me no momento em que perguntava para dentro como é que nunca tinha reparado na evidência. “Alguns meses” menti, não sei porquê. “Falta-lhe aqui  músculo (1)”. As palavras dela chegaram ao mesmo tempo que eu interiorizava a constatação, e uma espécie de arrepio percorreu-me de cima a baixo.

Tinha marcado a consulta, que ocorreu no final de julho de 2011, pois alguma coisa estranha se passava com as mãos, sobretudo com a esquerda. Numa ida à neve, em março, uma paralisia parcial tinha surgido sem aviso, após atirar algumas bolas geladas. Pesquisei sobre o tema mas não encontrei explicação médica. 

Entretanto, outro sintoma continuava a agravar-se: o polegar esquerdo perdia força, e as dores após o seu uso eram bastante incomodativas. A situação vinha já de 2010, e motivou uma visita a um ortopedista famoso. Radiografia e TAC feitas, e o veredicto veio: “nada na mão esquerda, mas o polegar direito apresenta um condroma que exige operação urgente”. Disse ele que era um tumor benigno que afecta principalmente os ossos das mãos e dos pés, e que iria alastrar… A intervenção cirúrgica à falange teve lugar em janeiro de 2011, e seguiram-se umas semanas de fisioterapia. 

Este episódio desviou a minha atenção do polegar esquerdo, e só lhe  dediquei algum tempo depois da paralisia com o frio. Claro que continuava a doer, mas só no verão o conjunto de sintomas me sugeriu, perante o que tinha lido entretanto, que poderia ser um problema neurológico, e acabei na tal consulta do início deste relato com a médica neurologista pouco simpática.

Seguiu-se um corropio de testes, desde a dolorosa electromiografia à ruidosa ressonância magnética, passando também por uma TAC, e o primeiro diagnóstico confirmou poder tratar-se de um problema neurológico. Grave. 

Em agosto, como era habitual, fiz uma semana de férias com amigos, remando diariamente na minha  canoa. Aí, foi evidente outro sintoma: já não conseguia manter o rumo, pois a ligeira falta de força no braço esquerdo desviava continuamente a canoa. Tirei as devidas conclusões.

No início de setembro, nova consulta com os resultados dos exames efectuados corroborou a identificação inicial feita pela médica, mas tratou de me encaminhar para um neurologista do hospital de Stº António. Para confirmação, e para exclusão de outras patologias, faltavam alguns testes. 

Mantive tudo em segredo. Só no fim de setembro, quando tive de fazer uma punção lombar para análise ao líquido cefalorraquidiano, o que implicou pernoitar no hospital, e também para fazer análises complexas ao sangue e repetir a electromiografia, é que disse em casa o que se passava comigo. Não foi fácil.

Finalmente, com os resultados das análises todas, a confirmação do diagnóstico inicial chegou em outubro: E.L.A., Esclerose Lateral Amiotrófica. É difícil descrever o que se sente nessas ocasiões.

Por insistência conjugal, procurámos uma segunda opinião, e depois uma terceira e uma quarta, mas todas foram coincidentes face aos resultados de todas as análises. 

Para mim, o mais difícil foi dizer aos filhos.

Notas:

1) o que a fria senhora me disse foi mais assim: “há atrofia muscular no 1º interrósseo da mão esquerda e na eminência tenar”.

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