Atirar pedras a côcos não era a coisa mais divertida para fazer? Claro que sim! E tentar mais uma vez, e outra, e outra, até conseguir derrubar um deles, não era uma vitória para a criançada? Era sim. O mais fácil estava feito mas, para atingir o merecido prémio, faltava o mais trabalhoso. Primeiro, regressar ao acampamento. Depois, era usar o canivete para desbastar lentamente as duras fibras protetoras, cavando uma das extremidades até destapar os “olhos do côco”. O nome técnico destes, poros de germinação, indica claramente a sua função, permitir ao embrião atravessar a duríssima camada que o protege, enraizar e crescer. Não nos importavam detalhes desta natureza, o nosso objectivo era chegar ao leite de côco e, para o bebermos, faltava só perfurar a robusta protecção. Tinha que ser num ponto mais frágil, e o conhecimento já adquirido apontava a solução, ou seja, um dos “olhos”. Com rotação da lâmina, como se fosse uma broca, fazíamos o orifício e, uma vez pronto, passávamos o côco de mão em mão. Cada um bebia uns golos do adocicado e refrescante líquido.
Finda a primeira guloseima, passávamos à segunda. Com uma pedra maior, duas ou três marteladas firmes e bem colocadas bastavam para revelar o miolo alvo, que nunca o tinha visto o sol. Comer o miolo do côco partido em pedacinhos era uma festa, não só por termos feito tudo por nossa mão e por nossa iniciativa, mas também porque as guloseimas não abundavam.
O acampamento era no parque da restinga do Lobito, local com boas condições, sombra, fontanários, sanitários, e duas grande praias. Lembro-me de lá termos estado na segunda metade dos anos sessenta, com a grande tenda de fundo de encerado azul e cobertura de lona laranja, estaria eu nos oito ou nove, em mais umas férias familiares que tanto de Angola me mostraram.
A praia interior, virada para a baía, tinha água quentinha e rasa, sem ondas, sem correntes, segura para a miudagem. A praia exterior era para quem sabia nadar. Virada ao mar, mais fria e com ondas, por vezes tinha corrente forte. As alforrecas apareciam regularmente, mas não eram muito bravas, bastava esfregar vigorosamente a pele com areia e a ardência desaparecia ao fim de meia hora ou pouco mais, dependendo da sensibilidade da vítima. Enterradas na areia, as quitetas eram fáceis de apanhar na maré-baixa. Estes saborosos bivalves detectam-se pelo sinal que deixam na areia, depois de cada onda recuar, uma pequena depressão circular. É o vestígio do canal por onde esticam os sifões, tubinhos frágeis e diáfanos, prolongamentos do corpo que usam para aspirar a água da qual filtram o seu alimento. Bastava cavar com o pé e logo aparecia a concha, brilhante e rosada. Mal apanhava uma quiteta, abria-a e comia-a crua.