SAPATEIRO GULOSO

Só quem entrava se apercebia, e os clientes fungavam: o que é isto? À pergunta mil vezes repetida, ele respondia sempre da mesma maneira: não sinto nada…

Cheirava a cola. Daquela antiga, orgânica, que cheirava mesmo mal. Afinal, a origem de tal “aroma” era uma lata velha, escurecida pelo uso continuado, onde se aquecia com um fogareiro uma mistura cuja receita passava de mestre a aprendiz. Antes de se usarem colas sintéticas, era comum a utilização de misturas com  gelatina bovina, obtida a partir de ossos, tendões, cartilagens e peles. O cheiro do “cozinhado”, misturado com o dos couros novos, com o das graxas e tintas, e ainda com o dos sapatos usados à espera de arranjo, nem todos das melhores proveniências, criava uma certa atmosfera no cubículo que a oficina ocupava, e só a habituação pituitárica do artesão poderia explicar a sua insensibilidade. 

O dia inteiro metido no seu espaço sem janelas, situado nas traseiras do estádio, tinha como missão principal cuidar das chuteiras e das bolas de futebol do clube Ferrovia, mantê-las em bom estado e bem ensebadas. E ali estavam algumas, alinhadas nas prateleiras. No tempo restante, o sapateiro atendia quem lá fosse, para complementar o curto rendimento que o clube lhe pagava. 

Ainda criança, de vez em quando e talvez ao sábado, eu levava os sapatos da família para colocar tacões novos, ou meias-solas, pois assim era habitual naquele tempo em que tudo tinha de durar muito. Ou então apenas para colocar protectores novos no meu calçado. Este, por vezes já magoando os pés apertados, tinha pequenas chapas de ferro (os tais protectores) na frente e no salto para resistir mais ao desgaste.

Quando lá ia, ficava algum tempo a observar as passagens cruzadas do fio pelos buracos abertos no couro com a sovela. E dava sempre uns dedos de conversa, perguntando-lhe  alguma coisa do  ofício ou do clube. 

Um dia, agradado pela fala de igual para igual, certamente muito diferente da sobranceria ou indiferença de muitos clientes e dos seus criados, estes já contagiados pelos patrões e esquecidos da pobreza que também era a sua, o homem partilhou comigo o seu pequeno luxo de sapateiro pobre. Era uma latinha com dois furinhos na tampa, feitos com prego e martelo. De vez em quando, ele fazia uma pausa na agulha, semicerrava os olhos e bebericava um golinho do precioso conteúdo. Provei. Era leite condensado. 

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