Por paradoxal que possa parecer, a observação do muito pequeno alargou-me os horizontes. A caixa de cartão azul, com imagens sugestivas e tampa de plástico transparente, revelava o conteúdo arrumado em entalhes num bloco de poliestireno expandido, a vulgar esferovite. Caixinhas de diferentes tamanhos, tubinhos com tampa, uma pinça e uma agulha metálicas, e ainda outras coisas que há muito esqueci, faziam companhia ao instrumento principal, um pequeno microscópio óptico. Presente muito bem recebido, foi há tantos anos que já não me lembro se teria sido pelo Natal ou num aniversário.
Primeiro foi a exploração do conteúdo da caixa, que tinha algumas lâminas de vidro prontas a observar. Uma com cristais coloridos que mudavam o aspecto iridescente em função da posição do espelho que captava a luz ambiente e a concentrava na lâmina. Outra vinha com um minúsculo insecto, cujas patinhas e antenas tinham detalhes que eu não suspeitava existirem. Outra ainda mostrava lindas células vegetais, evidenciadas por corantes desconhecidos…
Seguiu-se a descoberta de coisas totalmente novas para mim. Ajudado pelas instruções muito simples, aprendi a observar o surpreendente mundo vivo em gotas de água dos charcos, com organismos tão simples em movimento, uns lentos outros frenéticos por entre as algas verdes. Aprendi a preparar casca da cebola, e como ver as principais estruturas das células vegetais. Grãos de pólen, asas de mosca, e um sem fim de outras lições da Natureza chegaram com a prenda inesperada.
Claro que as imagens só eram nítidas a baixa ampliação. Apesar de se anunciar na caixa o número mágico 300X, o facto é que, com essa objetiva, a observação não era famosa. Mas as outras, de quatro vezes e quarenta vezes, eram boas quanto bastava para eu adorar observar um pouco de tudo.
Nessa altura, estava longe de imaginar que viria a usar microscópios e lupas binoculares nas aulas, durante a minha formação. E muito menos que seriam instrumentos fundamentais na carreira docente, e também na investigação que fui fazendo à microestrutura de gónadas de peixes e de pequenos ossos do seu ouvido interno, recolhendo informação essencial para uma exploração mais adequada dos recursos marinhos. Outra vertente do meu trabalho consistiu na identificação de pequenos organismos da fauna bentónica, para avaliação da qualidade ambiental, e essa tarefa passou igualmente por muitas horas debruçado em microscópios e lupas.
O que aconteceu ao meu pequeno microscópio não me lembro, mas desapareceu nas muitas e profundas voltas que a vida nos deu. Contudo, a pinça rudimentar acompanhou-me sempre nos trabalhos. Está no meu estojo de dissecção.