O VELHOTE DOS BONECOS

Parece que foi ontem. Fecho os olhos e vejo-o a sentar-se no passeio, costas apoiadas numa parede ou numa árvore, pois a idade avançada não ajuda. Do saco encardido, feito de serapilheira gasta, tira cuidadosamente o estranho emaranhado de fio de sisal muito sujo, de onde pendem bonecos toscos feitos de madeira esculpida, arame, pedacinhos de pano e missangas. Desenrola tudo lentamente, e prende uma ponta do fio num pé, passado uma alça em torno do dedão. Depois, estica o fio e repete a operação no outro pé. Já o tinha visto trabalhar com quatro figurinhas ao mesmo tempo mas, desta vez, eram só uma mulher e um homem. A cantarolar,  vai chamando os transeuntes que, curiosos uns, já conhecedores outros, vão formando um semicírculo. 

De repente, os bonecos ganham vida e dançam sincronizados, saltitando e agitando braços e tangas ao ritmo da canção, que também acelera. O pessoal bate palmas. Com movimentos dos pés e suaves mas rápidas pancadas nos joelhos e nas coxas, o artista faz o que quer das marionetas. Ou serão périonetas? Deixo a pergunta aos especialistas e regresso à memória.  Sentam-se, levantam-se, dobram-se para a frente projectando o traseiro para trás, esticam a barriga para a frente encolhendo o traseiro, os dois bonecos movem-se em em perfeita sincronia. Não fica nenhuma perna para trás nem se enganam no ritmo. Depois, o velho muda a cantoria e faz uma cara malandra. Quem entende as palavras, não sei se em umbundo, ganguela ou mesmo chokue, também muda de expressão, sorri, ou comenta o que aí vem. Agora, os bonecos executam outro movimento, e já não é igual para os dois. Desta vez é simétrico, juntando e afastando as respectivas zonas púbicas, simulando uma cópula. A assistência festeja ruidosamente e alguns atiram moedas para a latinha, convenientemente colocada aos pés da improvisada plateia. 

Esta memória de meio século ainda me faz sorrir e vem de Camacupa, em Angola. O artista tinha aproveitado um costume antigo para fazer o seu ganha-pão, e vivia como saltimbanco. Por outro lado, penso nas razões que o levaram a essa vida, que mal dava para a sua subsistência.

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