MÃO PINTADA

Uma mão pintada é um símbolo com muita força. E é-o hoje, tal como tem sido ao longo da história das populações humanas neste planeta. A figura que tinha na minha frente era a prova disso mesmo. Na superfície calcária, várias mãos pintadas eram bem visíveis, apesar da penumbra geral. Mãos claras, rodeadas de pigmento vermelho escuro, pareciam agarrar os bovinos de grandes e retorcidos cornos. Desenhados cuidadosamente nas paredes da gruta, traço elaborado, uma ilusão de movimento, e alguns dos grandes animais que pastavam pelas paredes desafiavam a imaginação. Cavalos, bisontes, veados e outros que não me lembro, mostram ainda hoje quais eram os animais importantes para as gentes que os desenharam.

A gruta que visitei, e que ficou marcada na memória, faz parte de um complexo sistema troglodita situado nos arredores da povoação francesa de Les Eyzies, com um vasto conjunto de arte rupestre que nos dá pistas de como se vivia e morria há dezassete mil anos. O espanto de ver pela primeira vez o que só conhecia dos livros foi agradável e, ao mesmo tempo, compensador. Conhecia pouco do mundo, e valorizei muito a experiência cultural que quase por acaso se tinha proporcionado.  Mais uma aventura dentro de outra, como tive a sorte de viver tantas vezes ao longo da existência.

Era o primeiro fim de semana na época das vindimas em França, onde eu tinha ido tentar a sorte de um lugar de trabalho. À terceira tentativa consegui, como relatei noutra memória (ver SEGUNDA VINDIMA). Depois do trabalho semanal, a pausa era merecida. Como ao domingo não havia colheita de uvas, os forasteiros como eu aproveitavam para descansar ou passear. Ao saber da existência deste património a pouca distância, um par de horas de comboio, a minha escolha estava feita.

Devido às alterações de temperatura e humidade provocadas por grande afluência de visitantes, algumas das pinturas começaram a degradar-se. Lamentavelmente, alguns daqueles quiseram acrescentar nas paredes a sua marcas de cavernícolas actuais. Por essas razões, a maioria das grutas europeias com pinturas rupestres já não é visitável. Hoje, as principais “catedrais” da idade da pedra foram replicadas em gesso gravado ou pintado, construídas perto das originais, e é para as novas instalações que os turistas são encaminhados.  

Com o passar dos anos, visitei outras cavidades no solo, umas naturais e outras feita por mão humana, cada uma delas com características interessantes. Assim de repente, chegam memórias das grutas de Mira de Aire, com estalactites delicadas e iluminação de gosto duvidoso. E uma gruta em Gibraltar, de múltiplas colunas, grossas e torcidas. E uma tão grande, perto de Trieste, que diziam caber lá dentro uma catedral gótica. E outra na Costa Rica, tão estreita que era necessário rastejar frequentemente, mas com lindíssimas formações rendilhadas e onduladas de carbonato de cálcio, e também morcegos e enormes artrópodes predadores. E que dizer dos tubos de lava, estranhas formações que percorri na Madeira, nos Açores e também no Havaí, … 

Deixei para o fim as minas. Em Valongo, andei por várias galerias e no Fojo das Pombas, tendo visto adultos e posturas de Salamandra-portuguesa. E perto de Castelo Melhor, fomos à procura de morcegos em antigas explorações de urânio. E encontrámos. 

A primeira é sempre a primeira, passe o pleonasmo, mas aquela gruta francesa, com as suas obras de arte, ficou para mim como a mais mágica de todas as que vi.  

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