Nos anos 60, o nosso quintal tinha lagartos verdes, gordos e muito rápidos, que eu não conseguia agarrar. Um dia, não sei como me ocorreu a ideia, torci um alfinete, prendi-o numa linha de costura, apanhei um gafanhoto e amarrei-o no alfinete, bem vivo e a espernear. Depois, coloquei o instrumento de pesca junto ao muro que separava a casa dos olhares de quem passava na rua, e que estava coberto de uma sebe espinhosa de bouganvilia. Não sei quanto tempo esperei. O facto é que um lagarto esfomeado não enjeitou o gafanhoto “à boca de semear” e ficou preso no anzol improvisado. Foi fácil de dar-lhe a mão e brincar com ele depois de o libertar do alfinete que ele não queria largar. Repeti a brincadeira, sempre com sucesso. Na maioria das vezes, para além de eventualmente perder a cauda, não acontecia nada de mal aos brinquedos vivos, libertados algum tempo depois. Apenas uma vez um deles não resistiu. Morreu e eu abri-o para ver as entranhas. Sabe-se lá se o meu gosto pela biologia não terá começado com um gafanhoto preso num alfinete torcido…
PESCAR LAGARTOS
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