Mergulhei no mar, quase oito da noite. O pôr-do-sol de julho preparava as cores de costume, reflexos laranja na água quase sem ondas. Depois da caminhada desde o apeadeiro de Modivas, transpirado, não faltava motivação para largar pasta e roupa, enfiar o calção de banho e correr cem metritos até à praia. Sem vento nem gente, não estava assim muitas vezes, até a água fria soube tão bem. Só dez minutos balneares, regeneradores. Caminhei pausadamente para casa, relaxado, gozando o ar ainda morno, toalha colorida pelas costas, o duche rápido à espera.
O jantar com família, barulhento como sempre. O serão a entreter as crianças com legos, puzzles e adivinhas. Depois xixi-cama para elas, e inventei mais uma estória de adormecer. Enfim sós, um pouco de conversa e de televisão, um sono merecido.
Tinha decorrido mais um dia de trabalho na faculdade, antecedido de três quartos de hora de leitura no comboio, pelo fresco da manhã. Nada de relevante a assinalar, excepto o calor intenso na cidade. No regresso, estação da Trindade, filas, comboio a abarrotar, raramente havia lugar sentado. Ao menos iam as janelas todas abertas.
Por tudo o que escrevi, fica este resumo doce de um fim de dia em Labruge, na casa de praia dos sogros, para onde nos mudávamos com tudo por dois meses. Era deles, e quem mais a usava éramos nós, afinal tinha sido essa a sua intenção quando a tinham comprado. Eu trabalhava na minha tese, em julho, a Anjos em agosto, no segundo emprego, os manuais. Vida de trabalho, sim, mas simples, despreocupada, economicamente estável, sem apertos. Dias felizes, é como eu recordo os verões em meados dos anos 90.